por Priscila Valente

Falar de Formação Continuada, numa semana tão especial para nós professores (15 de outubro) é sem dúvida um grande prazer.

Para iniciar esta conversa trago no texto vestígios do meu processo formativo e o quanto cada escolha feita até aqui, compôs a profissional que sou hoje. Espero que gostem e reflitam sobre a importância da formação docente.

Professores, formadores ou estudantes, pais, mães, filhos e filhas. Somos e exercemos funções diferentes simultaneamente, funções que, pouco a pouco, compõem a pessoa que somos hoje, que fomos um dia e que ainda viremos a ser. A cada passo dado, a cada escolha feita, as pessoas em nossas vidas referendadas, nos levam a caminhos que marcam uma trajetória profissional.

Muitos acreditam que o simples fato de gostar de crianças é o suficiente para se aventurar no mundo do ensinar, comigo não foi diferente. Ser professora era para mim um campo desconhecido e encantador. Mais tarde, em pleno exercício descobri que o prazer de ensinar estava no aprender a melhorar minha prática e que o fascínio verdadeiro estava no desvelar do meu fazer de cada dia, na pergunta, na inquietação.

Os primeiros anos lecionando, não são fáceis, muito do que estudamos nos cursos de magistério e/ou pedagogia parece não “conversar” com a realidade que bate à nossa porta e aí, surgem as incertezas, e nesse momento é importante termos a clareza de que alunos e conhecimentos transformam-se rapidamente e se quisermos atingi-los de forma efetiva, é preciso nos esforçarmos para também continuar aprendendo o melhor jeito de ensinar.

A década de 1990 trouxe diversos projetos de formação continuada de professores, possivelmente como resultado da LDB, que tratou a formação de docentes em capítulo específico, com isso, iniciou-se, um a busca constante por saberes que auxiliassem o fazer pedagógico e foi nessa busca que participei de diversas formações. Como uma esponja, absorvia tudo o que ouvia e levava para a sala de aula, sem muita reflexão, sem estabelecer relação entre a teoria e a prática e, muitas vezes, sem sucesso, mas o tempo, os estudos e a experiência me ajudou a compreender que a formação permanente dos professores é um momento fundamental, desde que proporcionem reflexão sobre a prática.

E, assim, vamos nos constituindo como professores, refletindo sobre as conversas com colegas de trabalho, relatando e registrando nosso fazer, estudando, buscando relação entre teoria e prática, aprendendo a olhar e entender o que os alunos precisam, e esse processo reflexivo pode ser intensificado se estiver atrelado a formação continuada que tenham como característica: foco no conhecimento pedagógico do conteúdo; métodos ativos de aprendizagem; participação coletiva; duração prolongada e coerência entre o que é trabalhado na formação e vivido na sala de aula, características essas, essenciais numa boa formação, segundo Moriconi et al. (2017).

Muitos se perguntam:

Talvez, porque exijamos de nós mesmos, uma postura que não temos, e não sabemos como ter, Canário (1998, p. 21) afirma que “o estereótipo tradicional do “bom” professor reduzido à qualidade de “bom” e “eficaz” transmissor de informações terá de dar lugar à figura do bom comunicador, definido, sobretudo, pelas suas qualidades de escuta”. 

Hoje, olhando meu processo formativo, creio que a maturidade e a experiência docente me trouxeram maior equilíbrio e reflexão quanto às práticas adotadas nas formações pelas quais passei e o que, de fato, incorporei no fazer da sala de aula. As propostas que me desafiavam a pensar melhores estratégias para o aluno aprender, pouco a pouco, compunham a profissional que eu ia me tornando.

Garcia (1999) enfatiza que o objetivo principal da formação de professores é o desenvolvimento e aperfeiçoamento de competências profissionais docentes, com a intenção de melhorar a qualidade do ensino oferecida aos alunos e, destaca a importância de ações que valorizem o questionamento e a reflexão dos docentes.

Encerro este texto com Manuel de Barros, que nos presenteia delicadamente com sua poesia e o sentimento de “incompletude” atrelado à busca, à ação e à transformação:

Assim como na poesia, espero que as ações formativas continuem nos movendo, e ensejando a transformação. Que bom se não nos fosse dado permanecer enrijecidos diante do conformismo!

Espero que essa leitura tenha despertado em você, reflexões sobre como a formação constrói sentido para as práticas dos indivíduos, direcionando nosso olhar para a escola, para o nosso fazer e para os nossos alunos.

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Referências

BARROS, M. Retrato Do Artista Quando Coisa. Rio de Janeiro: Editora Record, 1998.

CANÁRIO, R. A escola: o lugar onde os professores aprendem. Psicologia da educação: Revista do programa de Estudos em Psicologia da Educação/ Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. N.6 – São Paulo: EDUCI- 1998, pp. 9-27.

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

GARCIA, C. M. Formação de Professores: para uma mudança educativa. Porto: Editora Porto, 1999.

MORICONI, G. M., DAVIS, C. L. F., TARTUCE, G. L. B. P., NUNES, M. N. R., ESPOSITO, Y. L., SIMIELLI, L. E. R., TELES, N. C. G. Formação continuada de professore: contribuições da literatura baseada em evidências. São Paulo: FCC, 2017. 59 p.; (Textos FCC: Relatórios técnicos, 52).

Disponível em:  http://publicacoes.fcc.org.br/ojs/index.php/textosfcc/issue/view/340/showToc. Acesso em 5 jul. 2020.

NAUJORKS, M. I. Stress e inclusão: indicadores de stress em professores frente à inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais. Revista Cadernos de Educação Especial, Santa Maria, n. 20, p. 117-125, 2002.