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 Andréa Araújo dos Santos

Um dos temas muito debatidos atualmente sobre a docência é a formação continuada dos professores.

O trabalho pedagógico na escola requer metodologias e estratégias que nem sempre são vivenciadas durante a graduação. Na maioria dos cursos de licenciatura, como nos apresenta a pesquisa de Gatti (2010)[1], o foco fica mais em aprender o conteúdo da disciplina do que a didática, ou seja, como ensinar.

Pensando nisso, propomos aqui alguns pontos importantes para nossa reflexão: a formação inicial consegue promover o desenvolvimento das habilidades necessárias para o trabalho em sala de aula para os professores principiantes? Em que medida é possível aplicar os saberes teóricos da docência em uma sala de aula?

Vamos começar com o primeiro ponto. Para isso, vejamos o que nos diz a referida pesquisa, considerando os cursos de Pedagogia:

 

 

 

 

Esse resultado nos indica que a formação inicial nem sempre desenvolve as habilidades necessárias para a atuação do professor, já que tem foco maior na teoria do que na prática. Isso significa que a metodologia é pouco trabalhada durante a graduação.

E se o foco acaba ficando na teoria, vamos pensar no segundo ponto desta reflexão: em que medida é possível aplicar os saberes teóricos na sala de aula?

Considerando que a metodologia expressa como o professor irá desenvolver os conteúdos de estudo de cada disciplina, o fato dela ocupar menos de um terço das disciplinas da graduação pode dificultar a aplicação destes saberes teóricos no cotidiano da sala de aula.

Além disso, para aqueles que já atuam no espaço escolar, é possível constatar que, a cada ano, surgem novos desafios e complexidades para a atuação do professor, não é mesmo? Isso significa que ele precisa aprender novas estratégias que contribuam para o atendimento da especificidade de cada turma de modo a contribuir com o desenvolvimento de todos os alunos.

Neste sentido, podemos reforçar o valor da formação continuada para a atuação do professor e a qualificação da sua prática pedagógica. E esta formação precisa acontecer no cotidiano da escola. Para Freire:

 

 

 

 

Ao promover momentos de reflexão e de estudos na escola, estamos possibilitando o desenvolvimento de um processo de mudança por parte do professor.

E como podemos fazer para desenvolver esta reflexão a partir da ação pedagógica? Uma ferramenta para desenvolver esta formação em serviço é a tematização da prática, que favorece a análise e reflexão da realidade vivida pelos docentes.

Segundo Contreras (2010, apud Estrella, 2017, p.17) a teorização ou tematização da prática é uma relação entre a experiência e saber, um saber que aflora da bagagem pessoal examinada. Em outras palavras, a tematização da prática é a reflexão e autorreflexão sobre diversas práticas aplicadas em sala de aula com o objetivo de analisar a melhor forma de efetivar o ensino e a aprendizagem. De acordo com Weisz (2003, p. 55),

 

 

 

 

E como isso pode acontecer na escola?

Essa formação pode ser realizada de forma individual ou coletiva e uma ferramenta muito útil para o uso desta estratégia é a observação das filmagens das aulas. Você já teve uma experiência como essa na sua escola?

Na tematização da prática, o formador do grupo (em geral, podemos ter o próprio coordenador pedagógico atuando neste papel) traz a filmagem de uma aula – realizada em parceria com um professor com foco numa ação planejada previamente e compartilhada com o coordenador.

Este vídeo deverá ser assistido e analisado previamente, marcando pontos de paradas nos quais tenham tópicos importantes para a discussão com o grupo, com base em estratégias utilizadas pelo professor filmado e que podem servir como referência para o grupo.

Durante estas pausas o formador do grupo irá mediando esse processo reflexivo enquanto os professores buscam, de maneira coletiva, identificar as práticas pedagógicas apresentadas ao longo do vídeo e quais as suas implicações para aquela aula.

No entanto, o vídeo não é o único recurso possível para esta prática. Você poderá fazer uso, também, de registros escritos, nos quais o professor possa detalhar a sua prática pedagógica, trazendo evidências e reflexões que possam explicitar para os colegas como foi a aula planejada e que ações metodológicas foram utilizadas para promover a aprendizagem dos alunos.

O objetivo dessa estratégia é discutir a prática pedagógica do professor e o que ele fez que pode servir como referência para o grupo. Esta ação contribui não só para o aprendizado dos participantes, como para a prática do próprio professor observado.

Para isso, precisamos desenvolver uma cultura de colaboração para que todos se sintam “confortáveis” com este movimento de reflexão coletiva sobre as práticas do próprio grupo.

Considerando que não basta ao professor possuir os conhecimentos específicos de uma determinada área, mas que deve compreender e saber aplicar os saberes pedagógicos e didáticos, a tematização favorece essa apropriação de novas estratégias que contribuam para a melhoria da sua prática pedagógica. Não estamos tratando aqui da aplicação puramente técnica de transmissão do conhecimento, mas, sim, das experiências que são apuradas por meio das vivências em sala de aula (Mchota, 2017).

Schon (1983) destaca que um docente reflexivo reconhece que é necessário rever as práticas e, com essa ação, está efetivando dois caminhos significativos para aprimorar a sua prática, a reflexão para a ação e a reflexão em ação. O docente observa as condutas de ensino e se pergunta em que medida houve o aprendizado ou como reconfigurar a metodologia para efetivar a aprendizagem.

Nesse sentido, pela tematização da prática, novos caminhos podem nascer, renascer e serem reconfigurados por meio deste processo de ação-reflexão-ação promovidas no coletivo da escola.

 

[1] Disponível em http://www.scielo.br/pdf/es/v31n113/16.pdf

 

Referências bibliográficas:

ESTRELLA, A.M.C, Teoria da aprendizagem e bases metodológicas na formação. FUNIBER, 2017.

FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

MCHOTA, E. J. Saberes Necessários á Atuação do(a) Professor(a). Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Edição 03. Ano 02, Vol. 01. pp 215-227, Junho de 2017. ISSN:2448-0959, https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/saberes-necessarios-atuacao-doa-professora acesso em 25/03/2018.

QUEIROZ, L. F, ALMEIDA, L. A.A, AIRES, A,M.P, A tematização da prática pedagógica como estratégia na formação continuada de professores e o papel do coordenador pedagógico. Disponível em https://periodicos.ufpe.br/revistas/index.php/ADED/article/view/2480. Acesso em: 31/01/2018.

SCHON, D. The reflective practitioner: how professionals thinking action.

New York: Basic Books, 1983.

Weisz, T. O diálogo entre o ensino e a aprendizagem. São Paulo: ática, 1999.