por Adriana Rieger

Em tempos de emoções tão difíceis, ser agraciada com a Medalha Paulo Freire em reconhecimento ao meu trabalho e contribuições à educação foi um momento ímpar. Era uma tarde fria de julho quando recebi o telefonema de um ex-aluno do curso de Pedagogia, Alex Trajano, informando que a Associação Comunitária Educacional Cícera Tereza dos Santos, juntamente com a Prof.ª Drª Ana Maria Araújo Freire, Nita Freire, viúva de Paulo Freire, homenageariam no mês de outubro alguns educadores pela relevância de seus trabalhos e contribuições à educação brasileira. Já de início festejei e parabenizei pela iniciativa, mas em seguida, fiquei muda ao telefone quando ele me disse que eu seria uma das homenageadas.

Fui tomada por uma emoção que não consigo descrever! Ser lembrada por um ex aluno já era uma grande honra, quanto mais por ser lembrada de forma tão significativa.

Minha emoção transbordou em lágrimas e com a voz embargada agradeci muitas vezes pela lembrança. Ele, todo paciente, foi me explicando sobre os próximos passos e só então, entendi que haveria uma cerimônia para entrega de uma medalha, a Medalha Paulo Freire.

Desliguei o telefone e tomada pela emoção, um filme veio à minha cabeça. Foram tantos alunos em trinta e dois anos de magistério! Lecionei para todos os segmentos: educação infantil, anos iniciais e finais do ensino fundamental, uma rápida passagem pelo ensino médio como professora de língua portuguesa, educação de jovens e adultos, e ainda o ensino superior, especialmente, no curso de Pedagogia. Como será que impactei a vida de cada um desses sujeitos? Será que carregam boas lembranças?

Nós, professores, muitas vezes não temos a dimensão dos impactos que provocamos no mundo. Podemos plantar sonhos, mas também, podemos causar pesadelos, não é mesmo?

Em meio ao turbilhão de sentimentos fiquei refletindo sobre o quanto minhas leituras de mundo foram se ampliando ao longo de minha jornada, o quanto fui me transformando, me reinventando ao longo dos anos.

Desde muito criança sonhava em ser professora e confesso que não consigo me imaginar fazendo outra coisa na vida. Meus olhos ainda brilham, mesmo após tantos anos de profissão. Aliás, meus olhos brilham e minha alma se acende na frente de uma sala de aula!

Ao longo de três décadas construí uma carreira repleta de aprendizagens. Tive a oportunidade de experimentar diferentes posições, como a de diretora de escola, coordenadora pedagógica, supervisora de ensino, gerente de ensino fundamental, coordenadora de educação inclusiva, mas o papel mais importante sempre foi o de professora.

Muito consciente de meu papel social, assumi desde sempre a responsabilidade de dar mais a quem precisava, pois acredito que as desigualdades sociais podem ser corrigidas a partir das oportunidades educacionais. Sempre tive a pretensão de ser a melhor professora que meus alunos poderiam ter na vida, e investi muito em minha formação para alcançar minha meta. Pode parecer loucura, mas em 1985, ano em que me formei no Magistério, fiz uma promessa a mim mesma de que mensalmente, ao longo de minha carreira, eu investiria dez por cento do meu salário em auto formação, pois não me conformava em ouvir alguns professores se queixarem da falta de investimento e valorização por parte do poder público.

Se o poder público não investia ou reconhecia a importância da formação continuada do magistério, eu, protagonista e autora de minha história, consciente de meu lugar no mundo, tinha a obrigação de dar o primeiro passo para garantir a qualidade social de meu trabalho.

Foram trinta e dois anos de investimento mensal em forma de “dízimo”. Loucura? Talvez. Durante essa jornada, encontrei o amor da minha vida, me casei, tive três filhos, mas nunca abandonei a causa e tão pouco os sonhos de uma sociedade mais justa, igualitária, libertadora e equânime.

Hoje, já aposentada, fico mais distante da sala de aula, mas ainda atuo nos cenários da educação. Trabalho com consultoria educacional elaborando conteúdos, organizando processos formativos para professores, gestores e equipes técnicas de secretarias de educação na Elos Educacional.

No dia 26 de outubro, participei da cerimônia de entrega da Medalha Paulo Freire ao lado de companheiras de profissão, que assim como eu, continuam lutando por uma educação pública de qualidade. Foram momentos inesquecíveis que se reverterão em muita gratidão por tudo o que vivi e senti. Nem sempre o caminho foi fácil, mas também nem sempre foi difícil. Procurei aprender com todos os erros e acertos, com todas as dores e prazeres. Olho para trás e sinto muito orgulho da mulher que me tornei, do caminho trilhado e do legado que deixo para quem vier depois de mim.

Faço o que amo e amo o que faço! Talvez essa seja a fórmula para manter os olhos brilhando, a alma em chamas e o coração pulsando.

 

Dedico essa medalha a todos que partilharam dessa trajetória comigo!

Adriana Rieger