por Francisco Lima

Em seu primeiro dia na creche, estando no colo de sua mãe, a professora abre os braços para também lhe oferecer colo. A criança arregala os olhos demonstrando uma expressão de medo. Suas mãos se fecham, torce seu dorso e procura juntar-se mais ainda ao corpo de sua mãe, como se a ela quisesse retornar. Todo o seu corpo, naquele momento, grita NÃO à professora.

Em outro espaço daquela mesma escola, crianças maiores brincam no playground: correm o mais rápido que podem, rolam no chão sentindo o cheiro da grama, saltam sobre obstáculos como se pulassem grandes precipícios. Um dos meninos arqueia o peito, alonga o braço esquerdo direcionando-o para cima e diz ser um super herói. Uma menina sobe as escadas de um escorregador e, no alto deste, encolhe os ombros, tensiona o peito mas permite que a força da gravidade aconteça. Ao tocar o solo, sente as pernas vibrarem, os braços abrem aliviados e a boca libera um som de alegria.

Suas pernas cresceram, mas o espaço entre a cadeira e a mesa continua o mesmo para este adolescente. Vestido com camiseta larga e um moletom que, mesmo em dias quentes, já se tornou companheiro, mantém-se com a cabeça baixa durante toda a aula. Seus dedos mostram-se ágeis ao tocarem o diminuto aparelho celular.

Por ficar tanto tempo em pé, seus joelhos, assim como seus pés e suas pernas, estão cansados e têm dificuldades de sustentar o peso de seu corpo. A metade inferior de seu corpo já não dialoga com a metade superior. Nesta, garganta, dentes e boca projetam uma voz potente que pretende alcançar todo o espaço da sala. Os olhos vislumbram diferentes pontos e os ouvidos mostram-se atentos aos sons do ambiente. Uma mão segura firmemente um livro enquanto a outra suavemente faz gestos no ar. O peito sente o ar renovado quando olhares atentos dos alunos se evidenciam. O coração afetuosamente pulsa.

 Pautados nesta reflexão, vale retomarmos o conceito de Educação Integral que, por sua vez, têm sua base em documentos de referências como a Constituição Federal, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). 

Neste último documento, o conceito de Educação Integral está atrelado ao estímulo e ao protagonismo do aluno respeitando-se sua singularidade e promovendo seu desenvolvimento global. Desse modo – e considerando o aluno como sujeito de aprendizagem – a Educação Básica teria como objetivo o desenvolvimento pleno do aluno valorizando-se suas dimensões intelectual, física, emocional, social e cultural.  

Tais dimensões possuem entre si, entrelaçamentos, reciprocidades e interdependências. 

Por este motivo, abordar a temática “Corpo, gestos e movimentos” implica reconhecer que não estamos tratando puramente de aspectos físicos do desenvolvimento dos alunos, mas de aspectos que se interseccionam com as demais dimensões. 

Um olhar mais apurado para a BNCC, permite vislumbrar que esta temática mostra-se muito presente ao tratar da Educação Infantil. 

Dentre as competências básicas preconizadas na BNCC, é na quarta competência que se estabelece que a linguagem corporal, assim como a linguagem verbal, visual, sonora e digital, pode ser utilizada pelo aluno para: 

 A BNCC deixa clara a importância do Corpo, Gestos e Movimento quando estabelece que, na primeira etapa da Educação Básica devem ser assegurados seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento: expressar, conhecer-se, brincar, participar, conviver e explorar. 

É nesta etapa que, com o corpo, a criança explora o mundo, o espaço e os objetos de seu entorno; expressa emoções, relaciona-se com os outros, realiza ações corporais (sentar, engatinhar, escalar, dar cambalhotas etc) importantes para seu desenvolvimento neuropsicomotor.  Aqui, a ação corporal é tida como um potente recurso para que a criança reconheça sensações, identifique limites e possibilidades, tenha espaços de imaginação e amplie repertórios de movimentos. 

Tendo por base os direitos de aprendizagem e desenvolvimento, a BNCC define cinco campos de experiências, também interdependentes e que se correlacionam, nos quais as crianças podem aprender e se desenvolver. Tal é a relevância da temática aqui abordada, que um destes campos de experiência é nomeado por ela: 

 A leitura do conteúdo, na BNCC, relativo à Educação Infantil dá sentido ao uso do corpo e do movimento como estratégia eficaz para o alcance dos objetivos relacionados à Educação Integral. 

Com base na leitura da BNCC relativa às etapas do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, tem-se a impressão de que há um gradual – e, por vezes, até mesmo abrupto – afastamento das experiências corporais no processo de ensino-aprendizagem. 

De modo geral, identifica-se maior predisposição para a abordagem da temática nas áreas de conhecimento das Linguagens e das Ciências da Natureza. 

Na primeira, a temática é mais evidenciada na Educação Física que considera o movimento corporal como elemento essencial, que aborda o cuidado com o corpo e com a saúde e que pode se valer de diferentes práticas corporais, jogos e brincadeiras. 

Na segunda, a ideia de corpo refere-se a um o corpo que é investigado, aprendido e apreendido por sua fisiologia. O aluno pode nomear as partes do seu corpo, desenhar suas partes, discutir hábitos de higiene e comparar suas características físicas com as de outros colegas. 

Tendo em vista que o conceito de Educação Integral deve pautar as ações de todos os professores, independentemente de suas áreas de conhecimentos, há que se questionar como esta temática poderia ser trabalhada nas áreas de Ciências Humanas, Matemática, Ensino Religioso e outras? 

Ciências Humanas enfatizam competências focadas nas relações humanas e com o ambiente. Voltam-se, ainda, para o desenvolvimento do aluno quanto à compreensão de si, do outro e da sociedade. Assim como o corpo era valioso recurso para que a criança, na Educação Infantil, estabelecesse relações consigo e com o mundo, como este recurso pode continuar a ser utilizado nas diferentes etapas do desenvolvimento? 

Em Matemática, “corpo e movimento” podem ser estratégicos ao abordar conteúdos como a Teoria dos Conjuntos ou Geometria? É possível discutir, na aula de Ensino Religioso, sobre o que representa o corpo e como eles se movimentam nas cerimônias nas mais diversas religiões? 

Há inúmeros desafios que se colocam para que os professores realizem ações educativas focadas na integralidade do ser humano! 

Aos educadores dispostos a tais desafios, um caminho possível será a permanente reflexão sobre o corpo compreendendo que todo corpo (seu e de seus alunos) possui atravessamentos históricos, sociais, biológicos, subjetivos e culturais

 Corpo docente e corpo discente podem ser corpos vivos, dinâmicos, reconhecidos como em constante ação e transformação, corpos que aproximam o fazer, o sentir e o pensar no ato de aprender.

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Referências Bibliográficas

ALMEIDA, V.L.P. Corpo poético. São Paulo: Paulus, 2009.

Base Nacional Comum Curricular – Educação é a Base. Disponível em: <http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf>.

GARZÓN, G., TRIPODI, E. El cuerpo em juego. Buenos Aires: Lumen, 1999.

MATOSO, E. El Cuerpo in-certo. Buenos Aires: Letra Viva, 2006.

MATOSO, E. El cuerpo território de la imagen. Buenos Aires: Letra Viva, 2011

SILVA, I.A. (Org.). Corpo e sentido: a escuta do sensível. São Paulo: Unesp, 1996.