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Por Alex Moreira Roberto

O título desse texto já parte do pressuposto da constatação da existência de bullying nas relações escolares, porém nem sempre os educadores e gestores escolares conseguem notar com facilidade esse tipo de comportamento entre os alunos.

 

 

O bullying (palavra que vem do inglês bull, “touro”, “valentão”) foi definido inicialmente em um dos primeiros trabalhos de Olweus (1978) como “um tipo de violência que se diferencia de outras condutas violentas por fazer parte de um processo com quatro características que aumentam sua gravidade” (Díaz-Aguado, 2015, p.29). As quatro características sinalizadas por Olweus (apud Díaz-Aguado, 2015, p.29), são:

  1. ocorre em situação de desequilíbrio de poder no qual uma pessoa, geralmente apoiada por um grupo de pessoas, se sustentam nessa relação de desequilíbrio para agredir a vítima;
  2. não há interferência das pessoas que observam a relação de agressão entre os agressores e a vítima. Essas pessoas ao redor costumam não intervir, permitindo que a relação de agressão se prolongue;
  3. os eventos de agressão não ocorrem uma única vez, são repetitivos e se agravam ao longo do tempo;
  4. as agressões em geral começam sendo verbais e de cunho social, na relação de convivência entre os alunos e vão se tornando também agressões físicas. Nos últimos anos também têm se estendido para os espaços virtuais, transformando-se em cyberbullying[1].

Perceber esses eventos de agressão ocorridos no espaço escolar é de fundamental importância para que a escola possa intervir de maneira a possibilitar uma convivência saudável entre os estudantes e, acima de tudo, a segurança de todos os alunos. Cabe dizer que relações saudáveis de convivência não são aquelas nas quais não há a presença de conflitos, mas sim aquelas nas quais os conflitos são solucionados de maneira democrática, pacífica e respeitosa.

O bullying ocorre por conter a existência de três figuras-chave: o agressor ou agressores, a vítima e os espectadores. A vítima, pela condição de vulnerabilidade na qual se encontra, em geral, não se sente segura para relatar as violências pelas quais possa estar passando. O agressor, em geral, tem clareza de que seus atos podem levar a consequências, por conta disso, age em momentos nos quais essas intimidações sejam feitas em tempos e espaços nos quais a vítima não esteja sendo tutelada. E há também um personagem bastante importante: o espectador, que pode ser um ou mais estudantes.

Pensando o papel dos espectadores nos casos de bullying nas escolas, é de fundamental importância criar espaços seguros, inclusive de maneira anônima, onde esses estudantes possam denunciar qualquer tipo de agressão que tenha sido observada. Isso exige criar uma cultura escolar na qual os espectadores entendam a importância de relatar esses casos nos quais possam ter presenciado atos de violência.

 

 

Os professores e as famílias também são muito importantes na identificação da existência de bullying nas interações escolares. Ambos podem notar com maior agilidade possíveis mudanças no comportamento do estudante que possa estar sendo vítima de bullying. Ao identificar esses comportamentos, podem conversar com a criança ou adolescente e buscar ajuda, seja na escola, no caso dos pais, seja junto ao coordenador pedagógico, orientador ou diretor, no caso do professor.

Ruotti, Alves e Cubas (2006) apontam alguns dos sinais que podem chamar atenção dos pais e dos professores no comportamento dos alunos que possam estar sendo vítimas de bullying:

  • relato dos alunos sobre estarem sendo apelidados na escola;
  • recorrente falta de vontade de ir para escola;
  • arranhões, machucados, roupas rasgadas, objetos roubados que não são explicados pelos alunos;
  • isolamento em momentos de recreação e interação com os demais colegas da escola;
  • comentários de “não terem amigos” na escola;
  • falta de apetite, mudança de humor, sono agitado, tristeza aparente, baixa autoestima.

Esses são alguns dos comportamentos que podem apontar para o quadro de um aluno que possa estar sendo vítima de bullying. Pais e professores precisam estar atentos a esses sinais, criando assim uma rede de proteção aos estudantes.

Duas palavras podem auxiliar: mediação e prevenção.

Após descoberto casos de bullying na escola, é o momento de agir em função de garantir a segurança da vítima e o reparo ao dano causado por parte do agressor. Para isso será preciso:

  • Conversar separadamente com a vítima e com o agressor para entender o ocorrido.
  • Conversar com alunos que possam ter presenciado os momentos de agressão para entender a situação melhor e colher mais informações sobre o caso.
  • Acionar as famílias no sentido de relatar o ocorrido e conversar sobre os encaminhamentos que serão dados.
  • Se necessário, encaminhar o caso para outras instâncias, quando os limites de atuação da escola forem alcançados.

Contudo, não basta apenas “remediar” é preciso “prevenir”. Isso exige um projeto pedagógico que tenha as relações e interações como elementos importantes na construção do currículo escolar. Um trabalho de prevenção ao bullying pode passar por ações como:

  • Realização de um diagnóstico sobre a convivência escolar.
  • Constituição de um projeto pedagógico que trabalhe pautado em valores como: respeito, colaboração, ética, justiça e solidariedade.
  • Rodas de conversas e assembleias onde os alunos sejam protagonistas e possam discutir sobre os problemas que estão vivendo, buscando estratégias para a melhoria da convivência escolar.
  • Instauração de círculos de reparação nos quais, por meio do diálogo, agressor e vítima possam conversar e reparar o dano causado.
  • Formação continuada e em serviço junto aos professores para que possam refletir sobre sua prática pedagógica de maneira a viabilizar um trabalho pautado no diálogo, respeito e na generosidade.
  • Envolvimento das famílias nas ações escolares de maneira que eles se tornem ativos no processo de formação dos alunos.

O bullying gera dor, sofrimento e tristeza em muitos alunos que sofrem esses atos de violência ao longo de toda uma trajetória escolar. Para mudar esse quadro é preciso construir uma cultura escolar de respeito ao próximo, de maneira que as relações estabelecidas ocorram sem constituir dano emocional ou físico a ninguém. Professores, gestores, funcionários da escola, pais e alunos têm todos papel importante na construção de uma escola que respeite a todos e a cada um.

 

 

 

 

 

[1] Para saber mais acesse: https://novaescola.org.br/conteudo/1530/cyberbullying-a-violencia-virtual

Referências

DÍAZ-AGUADO, M. J. Da violência à cooperação na sala de aula. Americana: Adonis, 2015.

MARRA, C. Violência Escolar: a percepção dos atores escolares e a repercussão no cotidiano da escola. São Paulo: Annablume, 20017.

RUOTTI, C; ALVES; R; CUBAS; V. Violência na escola: um guia para pais e professores. São Paulo: Imprensa Oficial, 2006.

SCHILLING, F. A sociedade da insegurança e a violência na escola. São Paulo: Moderna, 2004.

SILVA, P; LOPES, J; CARVALHO, A. (Org). Por uma escola que protege: a educação e o enfretamento à violência contra crianças e adolescentes. Curitiba: Editora UEPG, 2009.