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Por Fernanda Zerbinatti

O ato de planejar prevê a consideração de diferentes elementos em benefício do alcance de um objetivo e este processo exige antecipação dos fatos de forma intencional. Podemos planejar a partir de diferentes propósitos: viagem, mudança, um período sabático, uma reforma, um período de descanso e ócio, um jantar, a rotina semanal ou diária. Enfim, as possibilidades são inúmeras e tão possíveis quanto as necessidade e a imaginação de cada um.

Neste cenário de múltiplas oportunidades, encontra-se uma especialmente genuína: o planejamento de aula. Mesmo quem não é da área da educação tem (ou deveria ter) uma vaga noção do quão laborioso, necessário e importante é este processo de elaboração intencional de ações específicas e criteriosas em prol da aprendizagem. Afinal, estamos falando da criação de oportunidades para que o processo de ensino e aprendizagem ocorra de forma qualificada e para todos os envolvidos, em especial: alunos e professores. Apesar de não ser uma tarefa simples, ela é possível de ser desenvolvida de forma exitosa, quando se tem conhecimento sobre o que e o porquê se pretende alcançar com o desenvolvimento de uma aula. Saber o destino é o primeiro passo para a tomada de decisões assertivas.  Todavia, é fato que uma sala de aula se constitui por alunos diferentes, que pensam e aprendem de forma distinta de acordo com suas características pessoais e a respectiva vivência de mundo; dentre outros fatores que influenciam o processo de ensino e aprendizagem. Diante desta perspectiva, a elaboração do planejamento de aula passa para uma segunda importante etapa que é considerar a seleção das melhores estratégias e recursos a serem organizados de forma integradora, significativa e eficaz.

Talvez, o grande desafio para obter um planejamento de aula eficaz (após o professor ter a clareza sobre os objetivos de ensino e de aprendizagem a serem alcançados junto aos alunos) seja o ato de considerar as diferenças num mesmo contexto de forma significativa e alinhada, onde cada um seja contemplado de acordo com suas necessidades. Esta etapa do planejamento, muitas vezes, num primeiro momento, pode parecer impossível de ser realizada, mas não é: desafios são ótimas oportunidades de superação e aprendizado, desde que haja disponibilidade para solucioná-los a partir do uso das melhores ferramentas e estratégias.

A bibliografia é rica em propostas e estudos relacionados à qualificação da prática educativa, porém, é preciso saber como aplicar os conceitos na prática; este alinhamento normalmente demanda estudo, compromisso e ação criadora num contínuo processo de aprimoramento pessoal e profissional por parte dos professores. Em linhas gerais, sabemos sobre a importância das práticas de sala de aula, considerarem a participação efetiva dos alunos no processo de ensino e aprendizagem. Entretanto, a utilização eficaz destes estudos é uma tarefa que requer do professor uma conduta estratégica, inovadora, flexível e sistêmica; aspectos que nem sempre fazem parte de seu repertório profissional de modo integrado. Vale lembrar que muitas práticas de sala de aula são reflexos das vivências dos próprios professores na condição de alunos. De acordo com PLACO E SOUZA (2006; p 20), a formação do adulto professor passa pela formação identitária.

 

 

 

 

 

 

 

 

Diante de cada novo objetivo de aprendizagem a ser alcançado junto aos alunos, o professor tem a oportunidade de aprender algo a partir de criação de novas estratégias. Para isso é preciso se distanciar de práticas consolidadas para buscar novas alternativas que sejam significativas.

Planejar uma aula prevê a criação de oportunidades expressivas para que o trabalho cognitivo proposto resulte na aprendizagem almejada. Constitui-se em uma produção personalizada e inovadora, uma vez que, alunos e objetivos de ensino e aprendizagem são específicos para cada grupo. Talvez uma das grandes dificuldades dos professores para a elaboração de um planejamento de aula que considere diferentes critérios com vistas à aprendizagem qualificada, seja o ato de criar. Criar implica o bom uso de ideias. Pesquisadores afirmam que nossa mente tem a capacidade natural de associar ideias: juntando coisas triviais podemos criar coisas incríveis. Nesta perspectiva o espaço da sala de aula é o local ideal para usar e abusar da criatividade.

As necessidades existenciais se convertem em possibilidades por meio da ação criadora que conduz o ser humano a novas descobertas. Não se cria porque se gosta e sim por necessidade de algo novo: uma ideia, uma resposta, uma nova situação. Nesta perspectiva percebe-se o uso da intencionalidade nos processos de busca por novas situações, fundamentado pelo movimento entre escolhas e alternativas; ou seja, uma seleção com critérios específicos.

Todas as pessoas possuem potencial para ser criativo; ou seja, a criatividade pode ser desenvolvida por qualquer pessoa que se esforce para isso. O primeiro passo é estar disponível para este propósito, considerando a superação de desafios um expoente potencial; assim temos no uso da criatividade uma via para potencializar a capacidade de resolver problemas. O ato criador vem da necessidade de renovação, criação ou transformação; todas intimamente ligadas ao espaço da sala de aula. Considerar estas especificidades na elaboração do planejamento oportuniza o estabelecimento do foco para a aprendizagem almejada (projeção futura), a partir da transformação da realidade da sala de aula por meio de ações que possibilitem aos alunos a elaboração de suas próprias ideias.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC; 2018) apresenta entre as dez competências gerais a serem desenvolvidas junto aos alunos, o desenvolvimento do pensamento, científico, crítico e criativo para que sejam eles capazes de “investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e inventar soluções”. Não faz sentido não oportunizarmos uma educação criativa num mundo que privilegia a criatividade. Por isso, é tão importante que esta competência seja praticada com regularidade por professores e fortalecida nos espaços formativos; afinal não se pode ensinar o que se desconhece. Vale ressaltar que o processo criativo difere do brainstorming (técnica praticada em grupo, criada por OSBORN em 1938 numa agência de publicidade para gerar ideias). A criatividade por sua vez é a ideia posta em prática.

 

 

 

 

 

 

 

 

O planejamento de aula exige flexibilidade para avaliar e ressignificar o que pode ser feito a bem da aprendizagem dos alunos. Temos assim, um exemplo claro de pura manifestação de um ato criativo; nem sempre identificado, mas presente no processo de elaboração do planejamento.

Ao lançar mão do processo criativo no momento de planejamento de aula de forma deliberada, o professor conta com a ampliação da diversidade de recursos e estratégias, pois as práticas existentes e habituais, já não bastam para produzir uma aula significativa para todos os alunos todos os dias. Além disso, de acordo com ZABALA (1998), cada um aprende a seu modo e ao seu tempo. Frente à realidade da diversidade da sala de aula é imperativo que o professor utilize diferentes linguagens para promover a aprendizagem dos alunos, o que torna a busca pelo desenvolvimento do ato criativo uma decisão assertiva para a qualificação da prática educativa.

Vivemos na era da inovação e do uso criativo do conhecimento, sendo a criatividade o grande capital a ser ensinado. É preciso investimento em procedimentos que convidem o aluno aprender a aprender. Neste cenário criativo, a necessidade e a eficácia, do ensino personalizado e do uso das metodologias ativas ganham sentido e significado no espaço da sala de aula na medida em que, conduzem o professor ao planejamento da gestão de aula de forma inovadora, ou seja, com criatividade. Considerando que, uma das premissas do ensino por metodologias ativas é a promoção do protagonismo estudantil, a expectativa é contar com uma atuação dinâmica por parte dos professores, uma vez que, sua intervenção começará antes da aula presencial, no momento em que irá planejar as aulas considerando essa centralidade do processo no aluno e terá grande relevância no momento das intervenções que realizar junto aos estudantes. O foco para este tipo de trabalho é oportunizar vivências para que os alunos atuem ativamente a partir de propostas que incentivem a reflexão, a pesquisa e a produção do conhecimento de forma personalizada. Contar com o uso da criatividade para o planejamento das aulas nesta perspectiva prática é sem dúvida um benefício para a qualificação do processo de ensino e aprendizagem.

Não existe criação sem esforço. As boas ideias nascem de longos processos até a partir do legado de outras pessoas. É preciso exercitar a disciplina do empenho. Normalmente desistimos antes da realização; precisamos ser perseverantes na busca e alcance dos objetivos estabelecidos. É na oportunidade da experiência que descobrimos nossas possibilidades de realização. Thomas Edison é um excelente exemplo sobre a importância da quantidade (persistência) para a geração da qualidade: concluiu a invenção da lâmpada elétrica, depois de realizar 1.200 tentativas.

Alguns processos específicos auxiliam no desenvolvimento do processo criativo:

Contamos também com a contribuição da prática leitora para o favorecimento do desenvolvimento do pensamento criativo, sendo a leitura de diferentes áreas e não apenas sobre educação. Contudo, para tirarmos proveito da melhor forma possível desta contribuição, precisamos selecioná-la a partir de uma pergunta simples: Esta leitura será oportuna a imaginação?

Na medida em que os professores redimensionam o próprio aprendizado com foco no desenvolvimento da respectiva criatividade, favorecem o estímulo da espontaneidade e da potencialidade criativa nos alunos de modo a estimular a participação de cada um no processo de ensino e aprendizagem.  Usar a criatividade é ousar em produzir o que não é, mas poderá vir a ser. Por isso o estabelecimento de escolhas é notável para qualificação da prática educativa numa perspectiva significativa e eficaz. O esforço criador exige análise e síntese e seu produto final configura-se em uma ideia, no caso da proposta deste artigo: em um planejamento de aula dinâmico, integrador e intencional.

Diante da reflexão posta fica um convite: experimentar processos com o propósito de fazer diferente do habitual, buscando soluções inovadoras; ou seja, usar da criatividade em diferentes situações. Depois vale a pena uma reflexão sobre os benefícios dessa decisão para ações futuras com vistas ao aprimoramento do planejamento de sala de aula.

Bibliografia sugerida

OSTROWER. F. Criatividade e o processo de criação. Vozes, 1987.

OSBORN. A.F. O poder criador da mente. São Paulo: IBRASA, 1972.

VASCONCELOS. M. S. Criatividade, Psicologia, Educação e Conhecimento do Novo. São Paulo. Moderna, 2001.

PLACCO. V.M.N.S.; SOUZA. V.L.T. Aprendizagem do adulto professor. São Paulo: Edições Loyola, 2006.

ZABALA. A. A prática educativa- como ensinar. Porto Alegre. Artmed, 1998.

THOMAS, A.K; Steve Jobs em 250 frases. Rio de Janeiro: Best.business; 2011.

GUIA DA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR; Disponível em: //www.eloseducacional.com/competenciasdabase/

TICIANEL. Margareth. Metodologias ativas para uma aprendizagem significativa. Disponível em: < //www.eloseducacional.com/blog/> Acesso em 12/04/2018.