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por Aline Santos

“Eu tento incluir meu aluno com deficiência, mas sinceramente, não tive formação pra isso e nem sei por onde começar.” Essa é a frase que mais ouvi durante minha experiência com educação inclusiva. É por isso que, neste mês em que comemoramos o dia nacional de luta da pessoa com deficiência, quero refletir junto com você sobre os caminhos possíveis para dar o primeiro passo para transformação da escola que conhecemos em um espaço orientado para o respeito às diferenças.

Temos um desafio enorme diante de nós: a maioria das crianças que está fora da escola, tem alguma deficiência, segundo estudo feito pelo UNICEF sobre a situação mundial da infância (2013). O Brasil conta com um arcabouço legal bastante avançado no que se refere à garantia de direitos das pessoas com deficiência, sobretudo na educação e, em virtude do conjunto de políticas públicas implantadas nas últimas décadas, o país comemora o aumento vertiginoso de inclusão na escola com o índice de mais de 800 mil matrículas de estudantes com deficiência, sendo 90% delas em escolas inclusivas de acordo com o Censo Escolar 2017. É importante salientar que são nomeadas escolas inclusivas aquelas onde estudantes com e sem deficiência estão juntos na mesma sala de aula.

Por outro lado, o número de matrículas deste público em relação ao contingente de mais 8,6 milhões de alunos da Educação Básica, corresponde apenas a 3% no ensino fundamental e 1,2% no ensino médio. No ensino superior o quadro é ainda mais reduzido: 0,4%. O choque de realidade vem como um balde de água gelada quando a gente compara esses números com os 15% da população mundial com deficiência, padrão médio segundo a Organização Mundial de Saúde.

O que é a deficiência? 

O primeiro passo é entendermos o que é a deficiência. Embora seja um conceito que vem se transformando ao longo da história, essa definição foi estabelecida pela Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (ONU, 2016), um marco regulatório importantíssimo no campo dos direitos humanos.  Veja o que a convenção diz sobre isso:

 

Ou seja, a deficiência está em barreiras na arquitetura, na comunicação, no método e na atitude das pessoas. Portanto, essa definição nos ensina que ao reduzir esses entraves externos às pessoas com deficiência, maior é a chance de ela construir sua autonomia e em igualdade de condições em relação às outras pessoas.

A construção de uma sociedade inclusiva começa pelo uso de uma linguagem que respeite as diferenças e não camufle características das pessoas. Longe de ser mais uma denominação do “politicamente correto”, essa terminologia reflete que antes da deficiência, há um indivíduo. Se um menino tem síndrome de Down, por exemplo, essa característica jamais o definirá integralmente, ela será mais um elemento dentre tantos outros que o constitui como um ser único.

Se você tiver curiosidade em saber mais sobre os termos para se referir as pessoas com deficiência, eu te convido a ler esse artigo de Romeu Sassaki que esclarece sobre o processo histórico do movimento social da luta de direitos desta parcela da população.

Educação inclusiva na prática

A escola inclusiva é aquela que acolhe a todas as pessoas, independentemente de suas características, diferencia estratégias e busca o desenvolvimento do melhor de cada um igualando oportunidades por meio da diferenciação de estratégias.

“Mas, e quando o aluno incluído fica de fora?” OPA! Acho que vale refletirmos sobre os diferentes paradigmas históricos para desembolar essa situação aí.

A educação inclusiva é irrestrita e propõe uma transformação na concepção de educação homogeneizadora que conhecemos para outro pautado na diversidade. Essa mudança de perspectiva coloca o aluno no centro desse processo junto com sua história, interesses, motivações, o que deu certo, o que não funcionou, que apoios necessita, como pode desenvolver a autonomia, como é a relação com seus pares. Fica para a escola, a missão de oferecer e buscar continuamente alternativas que promovam o desenvolvimento desse alunado com igualdade de condições em relação aos seus colegas sem deficiência. Essa ressignificação contínua pode ajudar a escola na desconstrução de preconceitos e antecipações excludentes e assistencialistas que desconsideram as potencialidades dos alunos com deficiência.

Por isso, só estar naquele espaço ou dizer-se inclusivo, não dá conta da complexidade desse processo educacional. Além disso, os aprendizados da equipe pedagógica podem dar pistas para estender essas possibilidades aos demais estudantes da escola.

E se for diferente disso? Daí, não é inclusão. O modelo da integração, paradigma anterior ao inclusivo, admite exceções, padrões de normalidade e pressupõe que o estudante deva se encaixar às condições pré-estabelecidas pela escola seja nos aspectos comportamentais, de estrutura ou da rotina sem nenhum tipo de flexibilização. Os ajustes, quando pensados, são voltados apenas para os estudantes com deficiência e desconectados do que é oferecido para os colegas, por exemplo.

São encontradas diferentes barreiras para que a escola seja um espaço efetivamente inclusivo. Entre as principais, está na formação de professores, que pode ser orientada para o oferecimento de ferramentas que explorem o potencial criativo dos educadores e menos sobre a perspectiva médica que se atém aos tipos de deficiências e transtornos existentes. Encontramos diversas barreiras também na acessibilidade dos espaços escolares, seja no aspecto arquitetônico, metodológico ou na comunicação. Mas a maior de todas elas está nas barreiras atitudinais da comunidade escolar.

Acontece que nem todas as escolas, educadores ou outras pessoas direta ou indiretamente ligadas ao processo educacional estão dispostas a mudar. A inclusão dos alunos com deficiência vira mais um puxadinho dentre tantas outras ações da unidade e a iniciativa que começa bem-intencionada, vira um completo desastre quanto à sua ambição inclusiva.

E como mudar essa lógica excludente? Vamos a algumas dicas:

“Não me sinto preparado para lidar com estudantes com deficiência”

Sinto em te contar, mas jamais estaremos preparados. É no encontro com o outro que as diferenças aparecem, por isso elas nos desafiam tanto. Essa expectativa de antever-se a situações como essa é no mínimo ilusória, visto que não há cursos de formação suficientes para dar conta da diversidade humana ou da pluralidade do processo educacional de cada estudante. Ou seja, saber sobre o transtorno do espectro autista, pode não te dar todas as respostas sobre o que fazer com aquele estudante, uma vez que duas pessoas com a mesma deficiência podem ser completamente diferentes entre si, bem como suas demandas e, por isso, estratégias, também diferenciadas. É o convívio com essa criança, jovem ou adulto que te apontará algumas evidências e indicará caminhos e possibilidades.

Você conhece seu aluno com deficiência ou autismo?

Converse com esse estudante para conhecer seus gostos, observe sua relação com os colegas, investigue junto a outros educadores e familiares sobre sua trajetória escolar e como ele se relaciona em outros espaços. Essa iniciativa te ajudará a ver como ele realmente é, sem antecipações, e a mapear as barreiras para que essa criança tenha acesso ao conhecimento e te dará pistas de como planejar a melhor abordagem para sua aula.

“Eu me sinto sozinha na tentativa de buscar alternativas mais inclusivas”

Essa é outra frase bastante recorrente entre profissionais da educação e familiares de pessoas com deficiência. O sentimento da solidão e de nadar contra a corrente é bastante aflitivo e sufocante na medida em que se encontram mais resistências que alianças nesse percurso (alô, barreiras atitudinais). Minha dica é: saiba que você não está sozinha, por isso, invista esforços na criação de espaços coletivos de diálogo e redes de apoio para a construção conjunta de estratégias. Quanto mais plural for a composição desse grupo (pode envolver organizações, pessoas da comunidade, profissionais da área da saúde, instituições especializadas, familiares, educadores, gestores públicos etc), mais acertado será o caminho para a busca por respostas e encaminhamentos.

Vai dar tudo errado mais de uma vez

Se a gente considera o erro como parte do processo de aprendizagem dos estudantes, por que seria diferente conosco? Nem sempre a busca por caminhos mais inclusivos será bem-sucedida. E está tudo bem. Não desanime! Aproveite para refletir sobre as apostas que foram feitas e compartilhar seu desafio com outras pessoas. Lembre-se que uma educação efetivamente inclusiva só se constrói com a colaboração de outros atores nessa empreitada.

“Educação inclusiva deveria ser pleonasmo”

Essa fala do professor Lino de Macedo deixa evidente a reflexão que, embora o termo educação inclusiva seja atribuído ao alunado com deficiência e autismo, na verdade, ele aponta para a importância de todo e cada estudante no processo de ensino e aprendizagem. Será que apenas os estudantes com deficiência que ficam para trás? Que educação é essa que relativiza a exclusão de alguns e de tantos? Toda pessoa tem direito de acesso a uma educação de qualidade na escola comum e se a nossa ambição enquanto sociedade é construir um mundo mais justo e igualitário, o modelo educacional que promove a exclusão precisa ser modificado e agora.

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