por Alex Moreira Roberto

Ainda é incerto sobre quando será retomada a rotina de aulas presenciais em muitas das escolas do nosso país, e diante da grandiosidade e diversidade do Brasil essa retomada, possivelmente, será em momentos e realidades distintas. No entanto, uma coisa é certa, pós momentos como esse que estamos vivendo, ao retomarmos a rotina é muito comum que as emoções das pessoas estejam mais afloradas, e nesse contexto, é preciso fazer gestão das emoções.

Pensando no papel do(a) diretor(a) de escola como um líder, nesse texto iremos abordar alguma sugestões de como lidar com o momento de retomada às atividades presenciais na escola que, seguramente, as pessoas poderão estar mais sensíveis, frustradas, estressadas, ansiosas, amedrontadas, tristes ou, por exemplo, desesperançosas.

Manter atenção redobrada com a saúde e bem-estar de todos será uma etapa importante desse processo e, para isso, será necessário muita estabilidade emocional do(a) diretor(a) de escola. Sabemos o quanto é difícil manter-se calmo em momentos de insegurança, mas isso é essencial para que as pessoas possam se sentir mais confiantes para lidar com suas próprias emoções.

Imagine-se chegando a um hospital acompanhando uma pessoa querida que acabou de sofrer algum acidente. Você está desesperado(a), ansioso(a) e com medo. Ser acolhido(a) por profissionais que estejam calmos, atentos e serenos faz toda a diferença para que também possamos manter a calma, não concorda? O contrário seria ainda mais desesperador para você e poderia te deixar ainda mais ansioso(a) e estressado(a).

Esse é um exemplo simples que reforça a importância do papel do(a) diretor(a) como uma liderança no espaço escolar, nesse momento que será preciso retomar da rotina e fazer a gestão das emoções dos estudantes, familiares, professores e funcionários.

Nesse retorno as pessoas poderão estar afetadas em diferentes domínios: cognitivo, emocional ou, até mesmo, fisiológico, e, aqui, vamos dar ênfase ao aspecto emocional e em como o(a) diretor(a) pode atuar nesse contexto.

Para isso, com base em sugestões feitas pelo pesquisador Carlos Sandoval, no Webinar “Liderança escolar em contexto de crise”, realizado pela Universidade Diego Portales no Chile, indicamos quatro passos importantes para realizar a gestão das emoções no ambiente escolar durante o processo de retomada da rotina:

Será preciso oferecer um espaço calmo onde as pessoas possam conviver e tomar   melhores decisões. Isso auxilia a sair desse momento de confusão emocional e a não gerar mais danos aos indivíduos.

Relacionar-se com as pessoas de modo mais pausado pode ajudar a diminuir a ansiedade de todos, e mesmo diante de situações de tensão, é preciso respirar e cuidar de não entrar na mesma energia.

Aumentar os gestos de boa convivência também é um ato importante, pois nosso cérebro quando está em estado de estresse fica em constante estado de alerta, e atitudes de boa convivência aumentam as experiências positivas dos indivíduos e ajudam a manter a calma.

 

 

Fornecer informação confiável e útil ao grupo é muito importante para que possam entender o que aconteceu anteriormente, o que está acontecendo no momento e o que vai acontecer nesse processo de retomada da rotina, ou seja, como a escola irá atuar. Isso permite que as pessoas tenham clareza do trabalho que está sendo feito, sintam-se orientadas e possam ativar sua rede de apoio para lidar com alguma situação em específico. Para isso, é preciso cuidar de que as informações sejam adequadas a idade de cada um, principalmente pensando, por exemplo, em escolas que lidam com crianças bem menores, de seis (06) ou (07) anos, por exemplo, e adolescentes.

Como já são muitas as noticias divulgadas nesse momento é preciso cuidar de que as informações fornecidas sejam relevantes e tenham suas fontes: quem disse, quando disse, e por que disse.

 

 

 

Mesmo nesse cenário de incertezas, será preciso, aos poucos, criar uma nova rotina e normalidade. Isso auxilia muito as pessoas a lidar com as emoções: poder ir retomando a vida cotidiana, mesmo que em outros formatos e com novos arranjos.

Dar nomes às emoções que estão sentindo também pode ser importante nesse processo inicial, bem como promover atividades de ações positivas, momentos de atividades físicas com as pessoas, possibilitar maior contato com a natureza, realizar exercícios de respiração e de concentração. Essas são atitudes que ajudam nesse processo de recuperação emocional, pois servem não somente para os estudantes, mas para toda a comunidade escolar.

Algo que também pode ajudar é realizar reuniões com a equipe de trabalho logo no início e depois ao final do dia. Reuniões curtas nas quais todos possam se olhar e organizar como será o trabalho naquele dia e, ao final fazer, uma rápida avaliação com os principais aspectos e aprendizados. Aos poucos, essas reuniões poderão não ser mais necessárias, à medida que a equipe avalie já ter passado por esse momento inicial de normalização.

 

 

Todo esse momento exigirá estar mais próximo de todos, seja individual ou coletivamente. Alguns poderão estar precisando mais de apoio do que outros, e o que ajuda nessa identificação é possibilitar que as pessoas tenham tempos e espaços para expressar o que viveram durante o período de isolamento e o que estão sentindo e pensando no momento atual.

Lembre-se de que fazer acompanhamentos individuais não é fazer terapia. A ideia é que esse seja um espaço de diálogo e reflexão. Um momento no qual seja possível se aproximar mais das pessoas e auxiliar de maneira que se sintam apoiadas e encorajadas a lidar com tudo que está ocorrendo.

Sessões de grupos dirigidas por alguém da escola que as pessoas possam compartilhar sobre o que estão vivendo também podem ajudam bastante. O importante é garantir que aqueles que mais precisam de apoio possam receber um acompanhamento mais próximo por parte da equipe escolar.

Quando os(as) diretores(as) atuam como líderes no contexto escolar nesse processo de retomada da rotina da escola e o fazem de modo a acalmar a si mesmos e aos demais, fornecendo informações relevantes e confiáveis para todos, normalizando a rotina e acompanhando as pessoas, acabam se transformando em agentes importantes da gestão das emoções presentes no ambiente e evitam produzir maiores danos do que aqueles que já possam ter sido vividos pelo grupo.

Agir dessa maneira auxiliará a comunidade escolar a lidar e superar os desafios existentes.

Tenhamos confiança que tudo vai passar!

Sei que nada será como está, amanhã ou depois de amanhã.
Resistindo na boca da noite um gosto de sol

(Milton Nascimento)

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