Gestores Escolares

Por Alex Moreira Roberto

 

Estudos recentes reconhecem cada vez mais a importância dos gestores atuarem como líderes pedagógicos no contexto das escolas e a influência positiva que podem exercer sobre o alcance dos objetivos educacionais que são estabelecidos (PONT et. al., 2008).  No entanto, ainda que o tema da liderança educacional tenha se fortalecido nas últimas duas décadas, há muito que se avançar em relação a criar condições para que os gestores possam exercê-la de maneira a apoiar o desenvolvimento profissional docente nas escolas.

A liderança pedagógica visa a melhorar o ensino e a aprendizagem e envolve liderar o trabalho dos profissionais da escola de maneira a atuar sobre a organização do currículo, a avaliação do ensino e da aprendizagem, e a promoção do desenvolvimento dos professores (RODRÍGUEZ-MOLINA, 2019).

Com base em uma revisão de estudos internacionais publicados nos últimos dez anos sobre o tema, a seguir apresenta-se cinco fatores relevantes para que os gestores possam apoiar o desenvolvimento profissional docente.

  1. Promoção de políticas que apoiem o trabalho dos gestores

Por mais óbvio que possa parecer, é preciso ratificar a importância de que os sistemas educacionais promovam políticas que forneçam diretrizes claras em relação ao trabalho dos gestores, o que ainda é um desafio em muitas secretarias de Educação no Brasil. Em geral, a evidência internacional enfatiza a necessidade de construir políticas que apoiem a realização de uma atuação voltada ao pedagógico por parte dos gestores, assim como trata sobre a necessidade de oferecer orientações e diretrizes para o trabalho com: acesso, produção e gestão dados nas escolas. Por ser um dos importantes desafios a serem superados pelos gestores (QUIROGA; ARAVENA, 2018).

  1. Maior equilíbrio entre as demandas administrativas e pedagógicas

Outro elemento de destaque é a importância de haver maior equilíbrio entre as demandas administrativas e pedagógicas destinadas ao trabalho dos gestores. Esse constante tensionamento vivido produz dificuldades para uma atuação mais centrada no apoio ao desenvolvimento docente.

Ainda que os diferentes membros da equipe gestora, como o diretor, vice-diretor e coordenador pedagógico, possuam atribuições distintas, o que se percebe é uma sobrecarga de trabalho administrativo e burocrático que, reiteradamente, compete com a realização de funções pedagógicas essenciais, como o desenvolvimento dos professores. Sobre esse aspecto, Bolívar (2019) sinaliza que “se queremos mudar os papéis que as pessoas exercem em uma organização, em vez de proclamá-los, é preferível criar as estruturas e contextos que apoiem, promovam e forcem as práticas educativas desejadas” (p.254, tradução minha). Para além de realizar mudanças nos documentos que orientam o fazer dos gestores, é preciso construir redes de ensino que verdadeiramente tenham as questões pedagógicas no centro do debate.

  1. Observação de aula como estratégia formativa importante

Uma vasta quantidade de estudos internacionais revela a importância da prática da observação de aula e a realização de devolutiva aos professores como estratégias essenciais para o desenvolvimento profissional docente. Destaca-se que esse acompanhamento precisar fazer parte de um processo contínuo, sem julgamento, colaborativo, e que estimule os professores na realização de práticas de reflexão sobre a melhoria do ensino e da aprendizagem.

Todavia, há desafios importantes a serem superados. Dentre eles, há que estar atento aos efeitos negativos das observações quando são realizadas de maneiras breve e informal, como passagens pela sala de aula. Essas observações, na maioria das vezes, acabam por não contribuir para o desenvolvimento dos professores (Wieczorek et. al., 2018). Outro ponto de atenção é quando as visitas dos gestores às salas de aulas são motivadas apenas por problemas de indisciplina dos estudantes ou quando o gestor é necessário como uma autoridade.  É preciso avançar para que a observação de aula se torne parte das estratégias formativas utilizadas pela escola, incluso como recurso para conhecer e compartilhar boas práticas.

  1. Oferta de formação continuada focada nas necessidades dos gestores

Outro importante consenso dos estudos trata sobre a escassa formação inicial e continuada oferecidas aos gestores de diferentes países. Um estudo realizado por Kraft e Gilmour (2016) relata a preocupação dos diretores que demonstram não se sentirem capazes de fornecer devolutiva assertiva e que possa apoiar o crescimento profissional dos professores. Esse e outros estudos apontam para a importância de que as Secretarias de Educação e organizações que atuam na formação de gestores estejam atentas às necessidades existentes em relação ao processo formativo dos gestores, e invistam mais ativamente nele. Isso permitirá promover formação que seja pertinente e aderente a essas necessidades.

  1. Fortalecimento da confiança nas relações interpessoais

Outro fator crucial que tem sido fortemente evidenciado está relacionado ao cuidado com a construção de confiança nas relações entre os gestores e os professores, bem como com os demais integrantes da comunidade escolar.

É preciso que os gestores estejam próximos aos professores, de maneira a produzir maior confiança nessa relação. Permitir a participação docente na agenda de discussão da escola aumenta o sentimento de pertencimento e o compromisso com a missão da organização, e estimular que eles compartilhem suas aprendizagens entre os pares contribui para a construção de vínculos de confiança entre os membros da equipe (TÁPIA-GUTIÉRREZ et. al., 2011).

São inúmeros os fatores que colaboram para que os gestores possam apoiar intencionalmente o desenvolvimento docente, e eles exigem um compromisso social que transcende a estrita relação entre esses dois atores tão importantes para a oferta de uma escola que promova o direito de aprender a todos os estudantes. É crucial reconhecer os avanços que temos feitos; apropriar-se do conhecimento que tem sido produzido; e avançar na construção de sistemas educacionais que sejam verdadeiramente comprometidos com as aprendizagens de todos e todas: estudantes, funcionários, professores e gestores.

 AlexMoreira

 

 

Referências

Bolívar, A. Una dirección escolar com capacidad de liderazgo pedagógico. Madrid: Editorial Arco, 2019.

KRAFT, M; GILMOUR, A. F. Can Principals Promote Teacher Development as Evaluators? A Case Study of Principals’ Views and Experiences. Educational Administration Quarterly, 1(43), 2016.

PONT, B. et. al. Improving school leadership. Paris: OECD Publications, 2008.

QUIROGA, M; ARAVENA, F. ¿Qué tipo de datos recolectan los directores? Consecuencias para la elaboración de planes de mejora. Revista Páginas de Educación, 11(2), 2018.

RODRÍGUEZ-MOLINA, G. Funciones y rasgos del liderazgo pedagógico en los centros de enseñanza. Educ. Educ. 2(14), 253-267, 2019.

TÁPIA-GUTIÉRREZ, C. P. et. al. Liderazgo de los directivos docentes en contextos vulnerables. Educ.Educ, 14(2), 2011.

WIECZOREK, D. et. al. Principals’ Instructional Feedback Practices During Race to the Top. Leadership and Policy in Schools, 2018.