Machismo estrutural

por Regina Bárbaro Martins Peralta.

Decidi começar esse texto com uma provocação logo em seu título. Quantas vezes nos deparamos com situações em que, sem percebermos, dizemos e agimos de forma a reforçar as diferenças entre as meninas e os meninos no que diz respeito às igualdades?

Nós educadores, inconscientemente reproduzimos e transmitimos um sistema de valores, pensamentos e atitudes sexistas que auxiliam na submissão das mulheres e na valorização dos homens, reproduzindo assim o chamado machismo estrutural.

Quando agimos de forma inconsciente é mais difícil de perceber esse preconceito e, portanto, de mudar esses comportamentos. Quantas vezes eu, como professora, solicitei a atenção dos alunos da seguinte maneira: “meninos e meninas, peguem seus livros…” parando para refletir agora, jamais comecei a frase iniciando pelas meninas.

Imaginem a seguinte cena: durante o recreio, um menino e uma menina disputam por um determinado brinquedo e o menino empurra a menina para ficar com o brinquedo e esta revida o empurrão derrubando o menino no chão que começa a chorar. Em seguida, aparece um adulto que dirá para ele as famosas frases “em menina não se bate!” e ou “meninos não choram!” As frases podem estar repletas de boas intenções, afinal a ideia é interromper a disputa, porém, ela vem carregada de mensagens subliminares:

Reparem como essas mensagens vão se fixando no inconsciente das crianças e são transmitidas de geração em geração. Algumas vezes de forma mais brandas em outros contextos de formas mais explícitas.

Quando acreditamos que os homens são fortes, valentes e agressivos e as mulheres, emotivas, frágeis e sensíveis estamos reforçando um comportamento que é reflexo de nossa história social e familiar.

Montserrat Moreno, em seu livro Como se ensina a ser menina, reforça que a escola é um bom lugar para promover mudanças nesses discursos que favorecem essa desigualdade social entre homens e mulheres. Mas para que isso possa ser uma cultura escolar, é preciso que comecemos a olhar para a forma como utilizamos as abordagens que fazemos com as nossas alunas e alunos. É preciso alinhar nossos discursos formativos com todos os adultos da escola que estão em contato com todos os discentes, desde o porteiro até a direção escolar.

Construir essa cultura da igualdade passa por reconhecer que temos falhas, e saber que precisamos modificar o nosso discurso e principalmente agir com intencionalidade quando formos abordar assuntos relacionados com as temáticas que envolvem a questão de gênero. É preciso falar sobre essa questão em reuniões formativas mostrando o quanto a mudança cultural promoverá a tão desejada igualdade social de gênero.

É preciso estarmos atentos às coisas do cotidiano escolar, como por exemplo, olhar para uma criança pendurada em uma árvore e ver se ela está segura ao realizar essa tarefa independente se é uma menina ou menino. Ao realizarmos a organização da sala com os alunos varrendo, limpando carteiras, sem priorizar essas ações para as meninas e deixar com os meninos os serviços de erguerem ou empurrarem as mesas. São pequenas ações do cotidiano escolar que vão levando a comunidade a perceber que a escola é de fato um espaço em que todos precisam ser tratados com igualdade, respeitando as diversidades.

Precisamos fazer reflexões do tipo:

Durante as brincadeiras de casinha, é comum vermos os meninos “saírem” para trabalhar ao invés de também cuidarem das bonecas. Se olharmos para essas cenas e planejarmos intervenções com intencionalidade, podemos propor um novo olhar oportunizando mudanças de forma a ajudar esses meninos a se tornarem pais mais ativos, afetivos na criação de seus futuros filhos.

Se desejamos que nossas alunas e alunos se tornem adultos com igualdades de direitos sociais, precisamos mudar a forma como passamos essas mensagens de modelos que já não servem e que, na verdade, estimulam a desigualdade social que temos em nossa sociedade.

Para isso, uma boa estratégia que podemos utilizar é apurar nossas escutas. Por exemplo, se ouço uma mulher dizer: “meu marido me ajuda em tudo lá em casa”, não a veja como sendo uma mulher de sorte. Apenas ela ainda não percebeu que ele não deveria ajudá-la, pois fazer as tarefas de casa, não é exclusividade da mulher. Se moro com outro adulto que tem as mesmas habilidades e necessidades que eu tenho para viver numa casa, porque somente a mulher deve realizar as tarefas enquanto os homens têm a opção de ajudar, se quiserem? E quando o fazem, é visto como um favor.

Após essas reflexões, posso enfim, escrever o título que quero para esse texto: Educação para tod@s!

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Referências:

MORENO, Montserrat. Como se Ensina a Ser Menina, São Paulo: Moderna, 1999.

PUIG, J. M. Práticas Morais. São Paulo: Moderna, 2006.

TOGNETTA, Luciane & VINHA, Telma. Quando a escola é democrática, Campinas: Mercado de Letras, 2007.

Documentário: O silêncio dos homens: https://www.youtube.com/watch?v=NRom49UVXCE (disponível em 21/07/2020)

Confira a gravação de nossa live sobre “O papel da escola na construção dos gêneros” e aprofunde sobre essa temática: