por Fernanda Zerbinatti

Vivemos uma era de atenção e valorização ao capital humano nas mais diferentes organizações, que o configura como um patrimônio especialmente estimado. Essa realidade abre espaço e tempo ao reconhecimento das relações humanas e sua respectiva qualidade, uma vez que, bons relacionamentos geram frutos consideráveis e de grande impacto para a qualidade da vida em um sistema de coletividade.

Atualmente a sociedade abre cada vez mais espaço para processos que oportunizam o trabalho colaborativo, em virtude das evidências de seus resultados revelarem possibilidades diferenciadas de realização e desenvolvimento, gerando assertividade e sentido de acordo com suas respectivas propostas. Como diz o dito popular “duas cabeças pensam melhor do que uma”.

Considerando essa perspectiva, o termo mentoria consiste um processo eficaz para a qualificação de um determinado (a) profissional. Em linhas gerais a proposta implica o apoio de um profissional mais experiente ao aperfeiçoamento de um iniciante ou que apresente necessidade de aprimoramento de uma determinada competência. Todavia, ao aprofundarmos o estudo sobre esta definição, identificamos que seu propósito é mais abrangente e significativo na medida em que a relação humana é valorizada e vivenciada de forma intencional, contribuindo para o sucesso coletivo, além do aprimoramento individual.

Esse empreendimento envolve diferentes propósitos que convergem para a qualificação de todos (as) os envolvidos (as) por um contexto que implica ganhos de acordo com as diferentes perspectivas estabelecidas: mentor (a) (a pessoa experiente), mentorado (a) (a pessoa selecionada para desenvolver potencialidades específicas com apoio de colegas experientes) e a instituição que favorece e incentiva o desenvolvimento do programa de mentoria. Apesar da escolha do mentorado (a) ser um indicativo de valorização por parte da organização a qual pertence, nem sempre essa percepção ocorre de pronto. A falta de conhecimento sobre o propósito e a expectativa com o resultado da mentoria, incide em equívocos de julgamento quanto à indicação ao programa. A experiência revela que normalmente os esclarecimentos iniciais favorecem a aceitação a participação da proposta; porém, somente ao vivenciar o processo de mentoria é possível compreender seu sentido por meio das vivências propostas.

Limitar o impacto propositivo promovido pela mentoria ao desenvolvimento do mentorado (a) é um equívoco passível de quem desconhece a relevância do processo de qualificação que embasa o conceito. Mentorar alguém exige colocar-se na condição de aprendente, uma vez que, será preciso trabalhar em função das necessidades e potencialidades de uma pessoa diferente de si. Para ensinar é preciso estar disponível, estudar, pesquisar e, sobretudo aprender. O olhar para o outro acarreta olhar primeiramente para si.

A condição de mentor (a) implica uma grande responsabilidade, pois conduz a um território até então desconhecido. Será preciso investigar de forma sutil o estado emocional e profissional do mentorado (a) ao qual está designado apoiar, considerando que seu desenvolvimento ocorra de forma efetiva e significativa de acordo com objetivos previamente estabelecidos. Afinal, seu propósito final é potencializar a aprendizagem de forma colaborativa com vistas a uma ação mais assertiva.

É fato que a mentoria promove o desenvolvimento de diferentes habilidades e competências e também o aperfeiçoamento das já existentes. Ninguém sai imune à mudança construtiva propiciada pelo programa.  As reflexões estimuladas são de grande valia para o aperfeiçoamento almejado.

Considerando o estudo de William Glasser (1925-2013) sobre o fluxo do conhecimento, é sabido que a aprendizagem ocorre de forma mais legítima a partir da efetiva participação do aprendente; fator que reforça a relevância do processo de mentoria em relação ao estabelecimento de uma parceria significativa para todos os envolvidos. É preciso ter significado para fazer sentido!

Desenvolver uma mentoria prevê a personalização do atendimento a partir da seleção de recursos e estratégias relacionados às necessidades de cada mentorado (a). Caberá ao mentor (a) planejar um estoque de perguntas propositivas que favoreçam seu conhecimento sobre a realidade da pessoa acompanhada. A dimensão da mentoria se amplia na medida em que conceitos e práticas existentes são ressignificados por meio de uma nova ótica, obtida a partir de análises reflexivas realizadas gradativamente e da realização de exercícios intencionalmente planejados. É preciso auxiliar o mentorado (a) sair da sua zona de conforto, normalmente firmada no campo da queixa e da resolução de problemas para a valorização das condições existentes em prol de novas possibilidades ao alcance de suas metas e objetivos assertivamente. Mais do que resolver problemas, a mentoria possibilita o desenvolvimento da autorresponsabilidade rumo à consciência e o sentimento de empoderamento. É necessário trabalhar para a realização de ações direcionadas à identificação dos aspectos de atenção, para qualificá-los e então agir de forma assertiva para a superação de cada um. Esse movimento contribui para as pessoas tomarem consciência de sua imobilização diante dos desafios que surgem e também das suas potencialidades para superá-los. Podemos afirmar que o processo de mentoria contribui para gerar comportamentos eficazes em prol de resultados surpreendentes, não considerados inicialmente.

Outro aspecto empenhado pela mentoria refere-se ao exercício do foco. Sem o estabelecimento do foco, a dispersão é certa e o alcance do resultado almejado, comprometido. Ressalta-se essa necessidade como base para o trabalho do mentor (a) e o aperfeiçoamento do mentorado (a).

O processo envolve o estabelecimento da confiança mútua em benefício de uma relação transparente, propositiva e segura entre os envolvidos (as). Condição possível a partir de conversas edificantes e com focos de atenção previamente estabelecidos. Progressivamente a parceria entre mentor (a) e mentorado (a) surge como resultado da relação saudável que vai se firmando com o desenvolvimento do programa.  Cada etapa a ser trilhada, carece de estudo e planejamento prévios para que não ocorram desvios de atenção desnecessários, condição que comprometeria a gestão qualificada do tempo dedicado ao programa.

A dimensão que o processo de mentoria oportuniza está para além do apoio a um determinado aperfeiçoamento profissional. Na condição de mentores (as) somos tocados de forma tão intensa e profunda que marcas ficarão para sempre em nossa memória afetiva, sendo que a primeira transformação começa em nós. Além do mentorado (a), seu mentor (a) também conta com a real possibilidade de desenvolver-se na medida em que trabalha em prol do outro (a). Prática e teoria são unificadas num combo repleto de sentido e significado, pois partem da realidade de uma pessoa inserida em um contexto que apesar de ser individual faz parte de um coletivo.

Um dos aspectos relevantes para o sucesso de um processo de mentoria é embasá-lo na rotina profissional do mentorado (a); assim a aprendizagem ocorre por meio da prática e da realidade vivenciada, tornando a aprendizagem significativa.

O processo de mentoria pode ser comparado ao desenvolvimento metamorfósico de uma lagarta até virar borboleta: precisa de tempo, esforço, dói em alguns momentos, mas a transformação oportuniza uma linda borboleta pronta a novos voos. Observar a segurança, a alegria e o empoderamento adquiridos por cada mentorado (a) ao final do programa não tem preço, mas sim um valor inestimável. Na Elos Educacional contamos com um programa de mentoria dedicado ao desabrochar das potencialidades dos (as) profissionais que fazem parte da instituição e como uma das mentoras da equipe de mentoria posso afirmar: os resultados obtidos comprovam que a dedicação e a colaboração produzem excelentes frutos no desenvolvimento profissional de cada um (a) e na sua respectiva contribuição ao sucesso coletivo.


 

 

Referência bibliográfica

Pirâmide de William Glasser: entenda o que é. Blog IMPACTA. 2019. Disponível em < https://www.impacta.com.br/blog/2018/02/07/piramide-de-william-glasser-entenda-o-que/ >. Acesso em: 16 jan/2020.

VIEIRA, Paulo. O poder da ação. São Paulo. Gente Editora; 2015.

STONE,Douglas;HEEN,Sheila. Obrigado pelo feedback. São Paulo. Portfolio Penguin; 2016.

LAGO, Daniela do. Feedback– receita eficaz em 10 passos. Integrare: São Paulo, 2018.

MERINO, Paola; MELERO, Diego. Acompañando a nuevos líderes educativosHerramientas para la mentoría a directores noveles. Santiago: Centro de Desarrollo de Liderazgo Educativo – CEDLE, Universidad Diego Portales, 2017. Disponível em: <http://cedle.cl/wp-content/uploads/2018/08/Acompananado_a_nuevos_lideres_educativos.pdf>  Acesso em: 16 janeiro. 2020.

HOFFMANN, Carlos A.; SILVA, Luzia F.; SANTANA, Hugo D. COACHING & MENTORING: Lapidando diamantes brutos. In REVISTA DE CIÊNCIAS GERENCIAIS; Vol. 16, Nº. 23, Ano 2012. Disponível em < https://revista.pgsskroton.com/index.php/rcger/article/view/1967/1869 >. Acesso em 16 jan/ 2020.