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por Alex Moreira e André Lopes

Singapura é um pequeno país, de uma cidade só, que fica na ponta da Malásia, no continente asiático, tem cerca de 5,5 milhões de habitantes e se tornou um país independente há 65 anos. Para fins de comparação, o Brasil tem 208 milhões de habitantes e, só de independência, completaremos 200 anos em breve.

As diferenças culturais e sociais também são inúmeras, mas ainda assim, olhar com atenção o sistema educacional público de Singapura nos permitirá refletir sobre como podemos melhorar a Educação pública brasileira.

É preciso dizer que isso não significa copiar e transpor de lá para cá alguns modelos prontos, mas entender as premissas que amparam a revolução educacional que eles têm realizado desde sua independência e que os colocou no primeiro lugar do Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes (PISA) [1].

Na década de 1960, quando se tornou independente, Singapura era um país pobre, sem recursos naturais, composto por três etnias diferentes (malaios, indianos e chineses) e tendo como principal riqueza o seu povo. Face a esse panorama, o governo decidiu, e segue decidindo, investir intensamente em ações que desenvolvam a população por meio da Educação.

A trajetória que tem sido traçada pelo país tem atraído a atenção de muitas pessoas que buscam conhecer estratégias de melhoria que fomentem um sistema educacional que promova a aprendizagem de todos os alunos. Assim, um grupo de 22 brasileiros esteve em Singapura de 28 de janeiro de 2019 a 01 de fevereiro de 2019, em uma imersão que, durante a visita, conheceram e conversaram com diretores de escolas públicas, professores universitários, líderes dos centros de formação de professores, representantes de fundação do terceiro setor, representantes de startups e, até mesmo, com pais de alunos. Toda essa diversidade de pontos de vista viabilizou muitas reflexões e aprendizados.

A viagem foi idealizada por Carol Campos, uma das integrantes da rede Talentos da Educação da Fundação Lemann. Além do apoio financeiro e logístico, a Fundação Lemann também articulou momentos prévios de estudos entre o grupo e mediou discussões sobre as visitas agendadas em Singapura.

Nesse texto, apresentamos alguns desses aprendizados como uma primeira iniciativa de compartilhar com outras pessoas ideias que floresceram por lá.

São muitas as pesquisas que reforçam a tese de que a escola tem sido a instituição que menos mudou ao longo do tempo. Esse importante apontamento reforça a ideia de que a complexidade das sociedades contemporâneas exige das escolas maior ênfase no desenvolvimento das habilidades que respondem às demandas do século XXI, como, por exemplo: criatividade, cooperação, adaptação, trabalho em equipe, entre outras. As tecnologias exponenciais têm revolucionado os novos tempos e exigido de todos a construção de novos conhecimentos. Por ser papel da escola preparar o aluno para a inclusão social, isso exige desenvolver nele a capacidade de interagir e se comunicar com esse novo mundo.

Em muitas das visitas que fizemos, esse aspecto ficou muito evidente em Singapura. O Ministério da Educação, as instituições que formam os professores e as escolas têm suas práticas pautadas por um currículo que intencionalmente visa responder a essa demanda, garantindo aos alunos maior capacidade de inserção e de transformação social.

No Brasil ainda temos avançado timidamente nesse aspecto. São poucas as iniciativas de sucesso que repercutem nessa área e, por vezes, as escolas, as universidades e as Secretarias de Educação ainda não conseguem dar a devida atenção para essas demandas.

A nível nacional, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) se coloca como uma iniciativa para a construção de currículos municipais e estaduais que abordem o desenvolvimento de habilidades mais contemporâneas. Agora, o desafio se coloca na fase de implementação e de criar esses canais mais diretos de diálogo com as necessidades da sociedade na qual estamos inseridos.

O caminho trilhado pelo país asiático para chegar ao topo da Educação mundial passa por uma forte organização. Todas as entidades envolvidas na oferta da Educação pública de Singapura estão alinhadas entre si, formando um grande ecossistema.

O Ministério da Educação, a Universidade Nacional de Singapura, o Instituto Nacional de Educação e a Academia de Professores trabalham de maneira articulada e coesa. Primeiramente, são definidas as competências e habilidades a serem desenvolvidas em todos os alunos do sistema educacional público. Uma pergunta é essencial ao sistema: “Que aluno/a desejamos formar na Educação Básica e Ensino Superior?”. Em seguida, esse grupo de instituições constroem o currículo da Educação Básica, pautam a formação inicial e continuada de professores, desenvolvem conteúdos e materiais para as aulas e definem as avaliações nacionais, tudo muito bem costurado ao ponto de todas as escolas não terem dúvidas do que se espera de cada aluno e aluna. Sabemos que o tamanho do país potencializa a organização desse cuidadoso alinhamento, uma vez que quanto menor o sistema educacional, maior a facilidade de as instituições dialogarem entre si. No entanto, devemos reconhecer que isso não é a garantia do sucesso desse alinhamento, do contrário não teríamos, no Brasil, desalinhamentos em redes municipais, bem como em algumas escolas. Como professores, tivemos a oportunidade de lecionar em diferentes unidades escolares e, em alguns casos, lembramo-nos de termos uma proposta pedagógica em curso no turno da manhã e outra totalmente diferente no turno da tarde. Praticamente duas escolas diferentes. Infelizmente, vivemos esse tipo de desalinhamento dentro de algumas escolas públicas brasileiras.

Por outro lado, temos casos de Secretarias de Educação que têm se aproximado muito desse alinhamento orgânico e coeso. Um dos nossos desafios é dar visibilidade para que esses exemplos inspirem outras redes. Outro desafio é criar coesão nos nossos três níveis de governo – federal, estadual e municipal, além de aproximarmos as universidades públicas e privadas de pedagogia e licenciaturas, que formam nossos professores, com os órgãos públicos responsáveis pela Educação, a fim de alinhar o que se deseja ensinar aos alunos e alunas, e de como preparar os professores para isso, sempre respeitando as especificidade regionais e garantindo alinhamento das políticas, desde o Ministério da Educação até o chão de todas as salas de aula.

A visita a Singapura nos mostrou o empenho que eles têm em garantir este alinhamento sistêmico que lhes permite revisar o currículo periodicamente sem excluir nenhuma escola nas inovações e mudanças planejadas.

 

 

 

Todos respeitam e admiram os professores em Singapura! Essa frase resumiria grande parte das reflexões que poderíamos fazer nesse tópico.

Esse foi um dos aspectos de maior impacto para nós ao conhecer “por dentro” esse sistema educacional que tem chamado a atenção do mundo. Ser professor é uma questão central e o Ministério da Educação seleciona seus professores entre os 30% dos estudantes com o melhor desempenho escolar. Ao iniciarem a graduação de pedagogia ou licenciatura, os aspirantes a professor realizam um período de estágio prático nas escolas, bem como recebem mentoria de professores mais experientes. A universidade que forma os professores tem clareza de que uma coisa é saber o conteúdo das aulas nas escolas e outra é ensiná-lo, portanto todos os futuros docentes precisam dominar as duas habilidades. O Ministério de Educação tem altas expectativas sobre o trabalho dos professores nas escolas, que se evidencia a partir de ótima qualidade das aulas e a garantia do aprendizado dos alunos.

Os professores também são formados para que durante o processo de ensino e aprendizagem tenham altas expectativas em relação aos aprendizados dos alunos. Por fim, após formados, os docentes têm emprego garantido nas escolas públicas, são alocados pelo Ministério e são pagos com salários equivalentes a outras carreiras de ponta no mercado. Não há professor sem trabalho!

Dentro de um sistema organizado e coeso com os objetivos que buscam alcançar, cabe dizer que a valorização dos professores em Singapura está para além de pagar melhores salários; há prestigio na carreira, profissionalização na profissão e comunicação frequente com a sociedade de que essa é a profissão que forma todas as outras.

Outro aspecto que nos chama muita atenção é a maneira cuidadosa, sistemática e organizada com a qual os representantes das diferentes instituições educacionais de Singapura realizam a gestão dos processos e dados educacionais.

As decisões são sempre tomadas com base em dados e evidências, mantendo diálogo permanente entre educadores – acadêmicos, professores das instituições de ensino e Ministério da Educação – e representantes do mercado de trabalho.

Mesmo o país sendo rico, os recursos são alocados de maneira estratégica, seja na formação de professores ou na compra de suprimentos educacionais. As escolas têm maior autonomia financeira na compra de materiais e contratação de serviços, porém são cobradas pela gestão e bom uso dos recursos.

No Brasil, alguns passos foram dados na melhoria da gestão dos processos educacionais, mas ainda há muito a ser feito. É preciso investir na autonomia das escolas sem burocratizar o trabalho da gestão escolar.

Em contato com gestores de inúmeras escolas do país e técnicos de Secretaria de Educação, fica perceptível que muitas decisões são tomadas com poucas informações, e quanto maior o nível hierárquico do tomador de decisão, mais graves são seus efeitos. A grande queixa, por vezes, é a falta de tempo para uma investigação mais adequada, a ausência de dados mais acessíveis ou o desconhecimento de como gerir processos (e pessoas) de maneira mais eficiente.

Todavia, como avançaremos se não buscarmos um modelo mais eficiente? Talvez, seja cultural não darmos o devido valor para a gestão dos processos na gestão pública educacional, porque a questão pedagógica é de suma importância. No entanto, Singapura e outros sistemas educacionais já perceberam que gestão de processos e pessoas impactam diretamente nos resultados escolares. Assim, acreditamos que autonomia com responsabilidade é um importante caminho para a gestão escolar avançar.

Esse assunto costuma ser bastante polêmico, mas não poderíamos deixar de tratá-lo aqui. Os profissionais que mais se dedicam e se empenham em dar boas aulas, promover o aprendizado dos alunos e oferecer uma escola pública de qualidade para sua comunidade merecem, mesmo, ser valorizados e reconhecidos? Singapura não titubeia em dizer que SIM!

Em sociedades mais iguais em renda e oportunidades, como é o caso de Singapura, é menos desafiador implementar sistemas de reconhecimento por mérito, pois os pontos de partida dos indivíduos são mais próximos. Além disso, o reconhecimento não se resume a pagar mais ao profissional, pois valorização vai além do salário.

O grande ponto de reflexão que gostaríamos de fazer nesse tópico, respeitadas as devidas diferenças sociais e de contextos entre Brasil e Singapura, é que não precisamos “jogar fora o bebê junto com a água do banho”, ou seja, não valorizar de maneira alguma aqueles que mais se dedicam em tornar as nossas escolas públicas lugares melhores. Valorização profissional pode ocorrer de inúmeras maneiras, inclusive com progressão horizontal na própria carreira, permitindo que excelentes professores não deixem as salas de aula e, ao mesmo tempo, tenham em sua rotina momentos de mentoria junto a outros professores, com foco em práticas pedagógicas e em outras dificuldades de sala de aula. Singapura, por exemplo, faz isso.

O desafio é superar os inúmeros obstáculos que existente quando tratamos dessa pauta e avançar na construção de políticas que valorizem ótimos profissionais, fazendo isso de maneira equânime e justa, pois, no final, quem ganha são os alunos, fundamentalmente aqueles mais pobres.

Essa pergunta nos acompanhou durante toda imersão e viagem de mais de 30 horas de volta ao Brasil.

Sabemos que cada um em seu microcosmo pode dar o primeiro passo, seja no nível da sala de aula, da escola, da Secretaria de Educação ou, até mesmo, do Ministério da Educação.

Algumas mudanças são mais estruturais e exigem o apoio da sociedade civil, dos políticos, das instituições do terceiro setor e de outros profissionais também envolvidos com a bandeira da escola pública.

Por fim, pode parecer clichê, mas não há receita pronta, porém, há algumas premissas experimentadas pelo sistema educacional singapuriano que apontam para caminhos com bons resultados – como as cinco listadas nesse texto. Contudo, a mudança ocorre quando colocamos a “mão na massa”, fazendo a diferença dentro do nosso espaço.

Talvez, antes de nós mudarmos todo o nosso complexo sistema educacional, precisamos reconhecer a necessidade de começar mudando a nossa própria realidade, a nossa prática, inspirando a mudança de prática dos nossos colegas, influenciando os nossos líderes e incentivando todos que sigam nesse efeito dominó de corrente do bem.

Isso não é fácil, mas é mais próximo e possível do que ficarmos presos nas amarras que envolvem a complexidade de fazer grandes mudanças.

Existe um efeito espelhado quando a gente começa a fazer a diferença nos nossos espaços de atuação. Isso gera engajamento das pessoas ao redor, que acabam refletindo nossa ação e fazendo o mesmo. Por vezes, é assim que a mudança começa a acontecer.

O primeiro passo que decidimos dar foi esse, colocando alguns dos aprendizados aqui, nesse texto, e nos colocando à disposição para conversar sobre muitas dessas iniciativas que aprendemos por lá.

 

[1] Avaliação internacional que mede as habilidades dos alunos de 15 anos em três áreas do conhecimento: leitura, ciências e matemática.