por Adriana Rieger

Neta de um avô poliglota, cresci rodeada de livros e histórias de várias culturas. Meu avô me dizia que a única coisa que nunca ninguém me tiraria era o que eu aprendesse e aconselhava que eu não parasse de estudar, de aprender, mas sempre deixou bem claro que o conhecimento da gente precisava servir para melhorar o mundo e a vida das pessoas. Reafirmava que não valia de nada o saber acumulado, que o saber bom era o que podia ser multiplicado. Estas palavras me acompanham até hoje e sigo estudando, aprendendo e ensinando.

Quando estava terminando a 8ª série, aos quatorze anos, já estava decidida em fazer o Magistério. Naquela época, início dos anos de 1980, conseguir uma vaga demandava fazer um vestibulinho, pois havia muita demanda e pouca oferta. O sonho de parte do proletariado era ter um professor na família e conquistar um lugar de destaque no extrato social. Embora fosse proletária, esse não era o meu sonho. Tudo o que eu queria era um lugar em que eu pudesse multiplicar o que eu sabia para transformar o mundo.

No Magistério tive professores que me ensinaram muito! Em especial, a professora Renata que me ensinou a paixão pela literatura infantil, a professora Wanda que me ensino sobre a valorização dos estudos sobre a Língua e o quanto ela poderia ser um instrumento de inclusão ou exclusão, as professoras Aparecida Viajolla e Sueli Fernandes, que me ensinaram sobre a importância da Didática para construir pontes entre os caminhos do ensino e da aprendizagem.

Estes são exemplos bons, mas nem tudo foi assim. Também tive outros professores, que me abstenho de citar os nomes, que me ensinaram de um jeito torto sobre o valor da aposta no potencial do outro. Não do tipo acreditar e agir porque não basta acreditar e não investir com um trabalho pedagógico responsivo.

No final do curso recebíamos algumas orientações sobre nosso início na carreira e ao mesmo tempo uma avaliação sobre nosso desempenho. Os alunos eram chamados em pequenos grupos para a tal conversa e confesso que em meu imaginário, este momento seria mágico como um oráculo. Minha decepção foi tamanha quando escutei da professora que aquele grupo era formado por pessoas com pouca bagagem cultural, vindas de famílias pobres e desestruturadas e que tínhamos muita sorte por ter conseguido concluir o curso, mas que lá fora o mundo não seria tão generoso e que ela recomendava que se de fato insistíssemos em ser professores, deveríamos começar por escolas em bairros mais periféricos, com bagagem similar à nossa. Ouvir isso provocou um maremoto de fúria dentro de mim! Fiquei muito indignada com o que ela dizia e não me calei. Questionei onde estava a bola de cristal dela para que pudesse fazer as previsões de futuro. Isso só provocou o despeito dela e a revolta dos colegas comigo, pois para eles o saber dela era inquestionável.

Enfim, faltava pouco para me livrar disso e o sonho de ser professora e promover a revolução me acompanhava noite e dia. Nessa época meu avô já era falecido, mas a promessa de que eu não me deixaria abater pela prepotência da classe dominadora se mantinha. Durante muito tempo eu julguei ser capaz de morrer por uma causa, mas com a maturidade veio a lucidez de que não é preciso morrer por uma, e sim, que é possível viver intensamente por várias delas.

No terceiro ano do Magistério prestei o vestibular para ver como era e passei em segundo lugar. Susto e surpresa! Consegui uma bolsa de estudos integral e cursei o último ano do Magistério com o primeiro ano de Letras. Entrei na faculdade inspirada em um primo, também poliglota, que me inspira até hoje com seu trabalho social ensinando idiomas para os jovens em uma comunidade da periferia de São Paulo e com o desejo de me especializar em Literatura Infantil. Lá descobri que o caminho entre a realidade e o sonho era muito íngreme e como Sísifo, diariamente eu empurrava as pedras montanha acima.

Entre tantos professores que mal nos olhavam, tinha a professora de Francês, Carla, que chamava à todos pelo nome. O professor Duílio, de Literatura Brasileira e Portuguesa que fazia uma roda de conversa em suas aulas, promovia saraus e emprestava livros de sua biblioteca. Fui monitora deste professor e jamais vou me esquecer da sua paixão pela arte de ensinar. Mas, também tinha a professora de Inglês que não dirigia uma única palavra em Português e questionava-nos o tempo todo se realmente estávamos no lugar certo, se tínhamos mesmo bagagem cultural para acompanhar suas aulas. Deixava bem claro que não facilitaria em nada as nossas vidas e que só os fortes sobreviveriam. E como me esquecer do professor de Latim e Linguística, que me apresentou aos estudos da Linguística Cognitiva de Chomsky, mas também me nutriu de raiva e desprezo quando me exclui de suas aulas por ter questionado suas opções metodológicas? Ele era adepto da chamada oral de Latim. Não que eu tivesse problemas em decorar as declinações, pelo contrário, pois quando ele perguntava quem se voluntariaria a fazer a declinação no início de suas aulas, normalmente eu me prontificava diante dos colegas atônitos com a situação vexatória. Em certo dia, quando me voluntariei, ele recusou. Disse que outra pessoa deveria vir à frente para a declinação e chamou uma colega. No mesmo instante ela disparou no choro e isso me impeliu a questioná-lo sobre o que pretendia agindo assim conosco e se ele não conhecia outras opções metodológicas para nos ensinar. Claro que devo ter me exaltado, aliás, meu coração dispara e as mãos suam só de lembrar da cena. Nem me lembro ao certo a resposta, só me lembro de seus gritos e das batidas na mesa e em seguida a porta se abrindo e ele me expulsando da sala. Ainda tentei ficar e cobrar meus direitos, pois pensava falar em nome do coletivo. Foi aí que descobri falava só por mim, que era mais fácil para os outros se curvar diante da opressão e seguir a vida. Ninguém saiu em meu favor, pelo contrário, foram vários os pedidos para que eu saísse logo da sala para não piorar a situação. Inclusive a colega que havia chorado há pouco quando convocada para a chamada oral teve a coragem de me perguntar o porquê eu estava criando toda aquela confusão.

Saí da sala decepcionada e me questionando sobre como as pessoas haviam reagido. Não pude mais frequentar as aulas de Latim e Linguística durante o semestre, pois o professor ficava à porta aguardando que eu me retirasse para que ele entrasse. Não desisti e fui acolhida pelo pessoal de Ciências Sociais. Foi um grande aprendizado. Militei em várias causas, conheci pessoas incríveis! Participei de vários movimentos estudantis, mas foi na sala de aula que encontrei meu lugar para fazer a revolução.

Embora tivesse notas altas com todos os professores, o fato de ser expulsa das aulas de Latim e Linguística, implicou na dependência das duas disciplinas e com isso a perda da bolsa de estudos. Sim, aquele professor fez tudo o que pôde para me mostrar quem tinha o domínio da situação. Fiquei abatida no início, mas encontrei força diante da realidade dura dos meus alunos, pois nesta época já era professora ACT da rede estadual de São Paulo.

Normalmente no início da carreira as vagas que nos oferecem são justamente aquelas que os veteranos não querem, afinal tem pontuações que lhes permitem escolher onde trabalhar. Acho justo, porém mantive a crença de que meu lugar no mundo era onde eu pudesse fazer a diferença e que quanto mais carente a comunidade, mais ela precisava de mim. Não por arrogância, mas por pura convicção de que todos podem, que todos tem um potencial para ser e agir no mundo.

Assumi para mim a missão de tirar da invisibilidade e dar voz aos que estavam à margem e muitas vezes, a partir do meu exemplo e da minha história, inspirei alunos, famílias e colegas de profissão. Em todas as redes que trabalhei deixei marcas que também se tatuaram na minha pele e povoam minhas memórias.

Atuei também vários anos como professora do curso de Pedagogia e procurava ensinar aos meus alunos, futuros colegas de profissão, o valor do acolhimento no início das aulas, de criar um ambiente seguro para a aprendizagem, de estabelecer relações de confiança e de aceitação à diversidade. Diversificava as estratégias e buscava tornar a aula o lugar da curiosidade, das parcerias, da construção coletiva. Democratizava a aula, compartilhava meu planejamento e o que eu esperava que aprendessem. Valorizava as suas produções para que se sentissem valorizados e que pudessem reconhecer seus potenciais.

Hoje, anos depois, encontro vários ex alunos apaixonados por seus trabalhos e comprometidos com o desenvolvimento de seus alunos.

O mundo precisa de professores inspiradores que transformem os desafios em oportunidades e procurem caminhos para percorrer de mãos dadas com seus alunos. Que não fiquem esperando soluções mágicas vindas de outras instâncias, mas que arregacem as mangas e experimentem novos caminhos, que construam relações empáticas com seus alunos, que os faça sentirem-se queridos e desejados na aula. Que demonstrem a alegria de ter encontrado seu lugar no mundo. Que sejam inspiradores e continuem acreditando no poder de transformar-se como pessoa e profissional e assim, transformar o mundo pelo acolhimento, pelo afeto, pela arte de ensinar.

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