por Janaina Sousa

Este trecho da música Roda Viva de Chico Buarque traduz, em partes, o sentimento de muitos neste momento: a saudade de um passado recente e a vontade de fazer o tempo parar para só voltar a correr quando surgir uma solução, quem sabe em forma de vacina, para a angústia que vivenciamos.

Mas como já dizia outro compositor, “o tempo não para”, então, que a roda-viva carregue a saudade pra lá e que possamos compor novas formas de viver a realidade que temos, ou seja, 130 mil escolas fechadas e cerca de 47 milhões de crianças e jovens longe das instituições de ensino* – e por tempo indeterminado.

Nessa situação atípica e inesperada, muitas são as fontes geradoras de dúvidas e stress; é essencial que possamos nos apoiar para passar da melhor forma possível, então como nós, profissionais da área da educação podemos auxiliar as famílias em relação às crianças e jovens que estão em casa?

Tenho conversado com muitas amigas que são mães e se sentem perdidas em meio a tantas novidades. Durante a conversa inevitavelmente surge a questão “Você, que é professora, me diga: o que fazer com essas crianças em casa?”.  Você também recebe esse tipo de questionamento?

Bem, sempre começo dizendo que também não tenho uma solução, ninguém tem, mas que podemos pensar em alguns pontos. Trago, a seguir, alguns desses pontos para refletirmos como podemos auxiliar nossos(as) amigos(as) com filhos em casa e principalmente as famílias dos nossos alunos.

 

 

Um ponto crucial é auxiliar que essas famílias entendam a situação pela qual estamos passando.  Não me refiro apenas a saber o que é a COVID e formas de prevenir seu contágio, pois são muitas as informações que chegam de todos os meios. É importante também que saibam os motivos pelos quais as escolas foram fechadas (e que a situação pode demorar muito para normalizar), que a maioria dos professores não foram preparados para essa realidade e, portanto, é preciso ter paciência.

Na busca pela melhor forma, muitos erros vão acontecer, mas o fato de a família valorizar a escola e o professor é fundamental para que as crianças e jovens façam o mesmo. Vamos conversar francamente, expor nossas expectativas e desafios e acima de tudo deixar claro que esta não é a situação que gostaríamos de estar vivenciando, mas que podemos torná-la mais leve se houver união, pois estamos todos do mesmo lado: o de quem quer ver o desenvolvimento dos alunos.

 

 

Também podemos orientar às famílias a serem claras, sem, no entanto, serem alarmistas. Não devemos subestimar a capacidade de entendimento das crianças e adolescentes; estes precisam compreender a gravidade da situação, até para tomarem os devidos cuidados em relação a higiene e compreenderem a necessidade do isolamento, mas não precisam ser expostas a uma enxurrada de tragédias que lhes deixem ansiosas e lhes tirem a perspectiva de dias mais promissores.

Mesmo que as crianças também estejam em isolamento, é interessante que mantenham contato (por telefone, mensagens ou vídeos), se possível, com pessoas importantes ao seu convívio como familiares ou colegas de escola, pois manter esses vínculos diminuem as mudanças tão bruscas a que foram submetidas.

 

 

Outro ponto muito importante e que tem sido amplamente discutido é o papel que as famílias desempenham nesse momento em relação à aprendizagem dos alunos.

Até alguns meses atrás era muito comum ouvir por parte dos professores “escola é para ensinar, educação é obrigação dos pais” e hoje é comum ouvirmos por parte das famílias “eu não ganho para ficar ensinando meu filho em casa, isso é papel dos professores”. É claro que não queremos que as escolas deixem o currículo de lado para ensinar valores e muito menos que os pais se tornem professores, mas é preciso compreender que as coisas não são assim, divididas em caixinhas que não se misturam. São mais como peças de encaixe que se complementam e podem construir muitas formas.

A escola, à medida que ensina, traz implícito em seu currículo e estratégias, concepções e valores que podem contribuir com o desenvolvimento integral dos alunos, embora não substituam o papel da família. Nesta perspectiva, é importante que as famílias compreendam que não podem e não devem assumir o papel do professor, mas podem acompanhar seus filhos e colaborar para que mantenham o vínculo com a escola e uma rotina de estudos que favoreça seu desenvolvimento.

Na minha trajetória como professora, tive muitos alunos filhos de pais analfabetos e um episódio mudou minha forma de ver a realidade.

Em 2016 criei meu primeiro grupo de WhatsApp com as famílias e foi uma experiência muito rica. Sempre, ao final da aula, eu mandava um texto explicando a lição de casa. Num determinado dia que me atrasei, resolvi enviar um áudio com a explicação. No dia seguinte uma aluna logo que chegou na classe me disse “Professora, minha mãe ficou muito feliz porque ouviu a explicação do que era para fazer. Ela não sabe ler, mas ficou ali do meu lado até eu terminar e pediu para você enviar um áudio dizendo se saiu tudo direitinho”. Depois disso, passei a enviar áudios todos os dias e esta aluna nunca mais deixou de fazer suas atividades para casa.

Esse é apenas um exemplo, mas serve para ilustrar que nem sempre as famílias deixam de fazer algo por negligência. Será que sempre levamos em consideração a diversidade de público que atendemos?

Outra orientação importante a fazer é que o aprendizado não se dá somente no momento da lição. Fazer um bolo em conjunto, explorando sua receita e a quantidade dos ingredientes, proporciona aprendizado. Assistir um filme ou programa e conversar sobre o mesmo gera aprendizado. Criar brincadeiras que explorem o vocabulário (como stop ou soletrando) gera aprendizado. Escrever um e-mail ou mensagem para as pessoas que tem saudade, gera aprendizado.  Podemos ainda explorar atividades artísticas como montar um quadro com figuras recortadas de revista ou improvisar uma peça de teatro; também atividades físicas como um desafio de dança ou de mímica que exploram a percepção corporal e coordenação motora, entre outras coisas.

Para os que possuem internet, há ainda a possibilidade de passeios virtuais ao zoológico, parques ecológicos e museus. Que tal pesquisar e enviar esses links como possibilidades aos alunos?

O importante é explorar as oportunidades e não as ver como um fardo. Pergunte às famílias qual lembrança querem que as crianças tenham desse período.

 

 

Cada família tem hábitos, costumes e formas de organização diferentes e isso também acontece nesse momento, então precisamos compreender que orientar a ter uma rotina não significa querer que todos os nossos alunos acordem, tomem café e façam suas atividades no mesmo horário, mas é importante que tenham momentos estabelecidos para cada uma dessas atividades e também momentos para os intervalos.

Em algumas famílias, os equipamentos como notebooks e celulares precisam ser compartilhados, então é importante determinar qual o horário de uso de cada um de acordo com suas necessidades.

Algumas famílias estão trabalhando em home office, então o ideal seria que os adultos organizassem uma agenda conciliando momentos para acompanhar as crianças em suas atividades escolares, momentos de lazer em conjunto e momentos onde cada um esteja fazendo suas atividades. Para fazer essa organização é importante que as famílias saibam que quanto menor é a criança, menor é seu tempo de concentração, assim, se o adulto vai passar duas horas fazendo uma determinada atividade, a criança precisará de várias atividades para fazer nesse mesmo período e isso pode ser organizado e combinado previamente.

Ter uma rotina estabelecida ajuda que as crianças diminuam sua ansiedade, pois sabem o que vai acontecer em cada momento do seu dia.

Importante pensarmos que algumas dessas reflexões farão total sentido para algumas famílias e talvez não façam nenhum sentido para outras, mas nem por isso podemos nos isentar da responsabilidade da tentativa, afinal, temos muitas incertezas, mas também a certeza que os vínculos que criarmos ou fortalecermos nesse momento serão essenciais para os futuros encaminhamentos.

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*estimativa de Pablo Acosta, coordenador de desenvolvimento humano do Banco Mundial para o Brasil