por Tabata Milula

Você conhece alguém que deseja entrar para a carreira docente?

Aparentemente, poucos querem. Quando li uma reportagem de 2018 dizendo que, dentre outras coisas, por conta do baixo reconhecimento social e baixos salários, apenas 2,4%¹ dos alunos de 15 anos têm interesse em ser professor, eu senti um grande “aperto na garganta”. Na garganta, pois, de fato, precisamos falar sobre assuntos difíceis e este é, sem dúvida, um dos grandes!

Foi inventado no século XIX o modelo de escola que conhecemos hoje. Suas máximas eram: ensino disciplinador a partir da homogeneidade, giz e lousa, professor ensina e aluno aprende. Hoje em dia, temos informações e conhecimento suficientes para saber que educar da mesma maneira dois seres humanos com as mesmas capacidades intelectuais não dará origem a seres humanos iguais. Temos a convicção que o meio influencia, mas, também, sabemos que o faz de formas diferentes a cada um. Sabemos das múltiplas inteligências de Gardner e muitas outras pesquisas científicas que nos levam a mais conhecimento sobre como aprender.

Por que, então, aprendemos de formas diferentes? Reagimos de formas diferentes? Sentimos de formas diferentes? Porque somos todos indivíduos diferentes! Heterogêneos, únicos não só na digital. Somos seres complexos, com pensamentos, sentimentos, necessidades e capacidades diversas.

Você pode estar se perguntando ou ouvindo um colega questionar: “ora, mas deu certo naquela época!”. Então me responda: o que, deveras, deu certo para quem? Se, neste século, menos de 3% dos jovens almejam essa profissão tão honrosa, e só para citar alguns exemplos: profissão cheia de dignidade; que tem previsto em seu escopo a remuneração para o estudo – vide as Horas de Trabalho Pedagógico Coletivo, mais conhecida como HTPC; um espaço de formação pedagógica aos professores, que proporciona momentos privilegiados de trocas e estudos entre professores e coordenadores; profissão que tem o poder de transformar, descontinuar ou, ainda, criar a cultura de um povo etc. Bem, se isso não anima nem os entusiastas do aprender e ensinar, é porque há algo mais sério e que desequilibra tudo isso.

Certa vez vi um debate² entre especialistas em Educação que contou com Cesar Callegari, sociólogo e membro do Conselho Nacional de Educação; Guiomar Namo de Mello, pedagoga e educadora; Lisete Arelaro, professora da Faculdade de Educação USP; e Luís Carlos de Menezes, professor do Instituto de Física USP. Eles levantaram que dentre os motivos que desmotivam a procura pela docência estão: a jornada de trabalho cansativa, o alto estresse e tudo aquilo que envolve o vil metal. Além desses, outro fator repele os jovens a optar pela licenciatura e pedagogia: a falta de prestígio social. Já pensou nisso? O que traria prestígio então? Qual a saída? Não é a única, mas, para começar, formação docente de qualidade!

Você pode estar se perguntando: ué! Mas como a solução que você propõe pode vir antes do acesso à licenciatura? Pois bem, quantas vezes você comprou um alimento por sua aparência e percebeu que ele não era tão gostoso assim? Quantas vezes teve que optar por um produto mais barato, porque não tinha recursos para o que você realmente queria. Bem, está aí uma metáfora de como vejo nossa profissão hoje em dia: uns optam pela falta de opção que têm, outros nem a consideram pela baixa atração que a profissão propõe. Quer outro dado? Uma pesquisa realizada pela Associação Nova Escola³ com mais de cinco mil educadores, entre os meses de junho e julho de 2018, reuniu mais informações sobre o problema e identificou que 66% das professoras e professores já precisaram se afastar do trabalho por questões de saúde. O levantamento também mostrou que 87% dos participantes acreditam que o seu problema é ocasionado ou intensificado pelo trabalho.

Como optar por isso? Pois saiba que, por bem ou por mal, no Brasil, mais de 2,5 milhões de pessoas optaram, segundo os dados de 2017 do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Esse número inclui os que trabalham na Educação Básica e no Ensino Superior, tanto na rede pública como na privada.

Isso tudo posto, mais do que dissertar aqui sobre os problemas e os culpados, é hora de nos perguntarmos: e então? Quem quer ser um professor? Há quem descobriu que queria ser professora, mesmo depois que já era uma: eu.

Desde que me descobri professora, tenho orgulho de minha profissão. Por apreciar minha disposição para a docência e por saber do quanto eu constantemente trabalhei com intencionalidade para desenvolver qualquer aluno em minha tutela. Quando algum desavisado – sobre o tamanho de meu brio em ser professora, com escárnio, falava: “ah! Você é professora de Educação Infantil? Que fofa! Brinca muito?”, nessa hora eu não perdia a oportunidade de fazer o que faço de melhor: ensinar! Dizia sobre o quanto o professor de Educação Infantil precisa ser um pesquisador por excelência da documentação pedagógica dos comportamentos, dos critérios de avaliação da aprendizagem, dos indicadores de relatórios, dos estágios de desenvolvimento, de grafismo e, por ser professora bilíngue, dos estágios da aquisição da segunda língua. Dissertava sobre as festividades na escola, o ambiente educador, o brincar e suas representações. Emendava sobre a função do professor mediador nos conflitos infantis, do quanto ele precisa observar para intervir com competência, do registro reflexivo que fazia de meus planejamentos, dos replanejamentos feitos em meio a metodologias e técnicas didáticas, sobre as reuniões de pais regadas a sentido, sobre olhar o aluno com unidade e propósito. Falava também sobre as sequências didáticas norteadas por projetos extraordinários, com temáticas complexas, científicas, lúdicas e acima de tudo, essenciais à primeira infância, aos direitos de aprendizagem, e eu fazia questão de ilustrar tudo isso com o potencial criativo e irreverente que só alunos de Educação Infantil têm.

Depois disso, só se via queixos caídos e caras surpresas por constatarem meu entusiasmo, meu rigor e primor ao fazer Educação, por escolher ser educadora, formadora, professora! Feições quase que espantadas por tamanha a dedicação, dignidade e prestígio que eu própria atribuía à minha tão “pífia”, até então, ocupação. Sabe qual formação me deu toda essa força para realizar com excelência minhas atribuições e a altivez de uma pessoa que faz medicina para falar da pedagogia? A vontade de fazer a diferença em algo que fará tudo diferente em nossa sociedade.

A verdade é que se queremos mudança já, temos que começar essa mudança em nós. Se você ainda não valida o real papel do professor no Brasil ou, se, como professor o seu gestor, ainda não percebeu o seu valor, se as famílias ainda não compreenderam esse papel, se o seu amigo ainda não entendeu porque você escolheu ser professor, sim, ser professor tem que ser a opção, e não a falta dela; então opte em sê-lo com intenção e   propósito, escolha hoje, agora!

Saiba que há muitos professores que precisam se encontrar, e irão, e é claro que há também aqueles que precisam se perder deste título, e irão. Àqueles que já se encontraram, mas que passam por dificuldades, o lema é: persistir.

Já aviso que depois da universidade, como amamos aprender, temos de ser nós mesmos os maiores curiosos na busca por conhecimento! Procurando ter vez e voz em nossa formação continuada, não só em cursos, na base conceitual e teórica, mas em nosso fazer, no chão da escola, na sala de aula, que é nossa maior professora hoje. Seja ajudando professores novos com a prática, pesquisando, fazendo vídeos de nossas boas práticas, documentando-as e as tematizando, valendo-nos do que pode agregar, métodos, técnicas etc. Sejamos nós mesmos os pesquisadores de nosso saber, nosso aprender, de nosso ensinar!

Se você é um agente formal de Educação ou em indução profissional (em transição de aluno a docente), primeiramente, você precisa ter claro seu papel e sua responsabilidade social na Educação. Isso posto, diferente do que no século XIX, você pode, por exemplo:

  • ser referência naquilo que ensina;
  • ter consciência de que não se ensina o que não se é, acredita ou compreende;
  • ir além do que acredita e compreende, aprendendo sobre si para ensinar;
  • motivar e estar motivado a dar sentido: construindo-o e orientando-o ao aluno;
  • promover a autonomia intelectual do aluno;
  • promover a criatividade, a descoberta e a curiosidade;
  • estar disponível afetivamente e aberto ao olhar e à escuta ativa;
  • ter a certeza de que você é ponto-chave de ação para transformar a Educação;
  • deve ter ciência de que, hoje, temos sementes de tâmaras em nossas mãos – levam de 80 a 100 para produzir os primeiros frutos, mas que se tiver claro sobre seu propósito, posso lhe garantir que essa semente é das melhores, só leva tempo.

Você estaria disposto a fazer com satisfação um planejamento estratégico, replanejar, criar alternativas, formar, engajar, motivar outras pessoas a continuar nesta tarefa, acompanhar as mudanças sutis, documentar tudo para que façam o mesmo com outras, e mais outras, para que então outras colham esses frutos?

Sim? Parabéns! Você quer ser um professor, mesmo que você já seja um.

Ah! Lembre-se disso: não há como haver educação de qualidade, sem professor de qualidade! Seja hoje! Seja agora!

 

Referências Bibliográficas

¹ Os dados são do relatório de Políticas Eficientes para Professores, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

² TV Cultura, Educação: Novos Rumos, debate o tema Formação de Professores, em https://www.youtube.com/watch?v=l7L5rve1IEA

³ 66% dos professores já precisaram se afastar por problemas de saúde https://novaescola.org.br/conteudo/12302/pesquisa-indica-que-66-dos-professores-ja-precisaram-se-afastar-devido-a-problemas-de-saude#