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por Silvana Tamassia

A infância é aquele momento de mil descobertas! Há um mundo a ser desvendado e tudo parece despertar o interesse e a curiosidade.

Historicamente, a Educação Infantil já passou por diferentes momentos dentro da educação formal. Inicialmente esta etapa era chamada de Pré-escola, ou seja, algo que antecede a escola e que deveria preparar os alunos para o momento de entrada na fase escolar, propriamente dita. No entanto, em 1996, com a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), a Educação Infantil ganha um novo status e passa a fazer parte da Educação Básica. Em 2009, com a emenda constitucional, a Educação Infantil de 4 a 5 anos torna-se obrigatória, ampliando, assim, o seu atendimento nas redes públicas de todo o Brasil e validando a importância desta etapa na formação da criança.

Para orientar o trabalho desta etapa, é publicado em 1998, as Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil que estabelecem o que deve ser ensinado e é organizado em sete eixos: matemática, natureza/sociedade, artes visuais, linguagem oral e escrita, conhecimento de mundo, identidade e autonomia, música.

Em 2009, foram publicadas as Diretrizes Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI), que mostraram um avanço na direção de colocar a criança como protagonista. O documento tinha como foco as interações e a brincadeira como eixos estruturantes, além de considerar os princípios éticos, políticos e estéticos para nortear a produção do conhecimento. Em dezembro de 2017, com a aprovação da nova Base Nacional Comum Curricular[1] (BNCC), são reforçados os direitos de aprendizagem e desenvolvimento de bebês e crianças de 0 a 5 anos: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se. Edneia Burger falou especialmente sobre o brincar em seu texto publicado no blog da Elos Educacional e que pode ser lido clicando aqui. Todos estes são elementos fundamentais do desenvolvimento da criança e precisam ser estimulados desde cedo para que possam desenvolver-se de maneira integral.

Para organizar as experiências concretas da vida das crianças e seus saberes com os conhecimentos que fazem parte do nosso patrimônio cultural, a BNCC traz um arranjo curricular distribuídos em campos de experiências, baseados nas Diretrizes Curriculares Nacionais sendo eles:

  • O eu, o outro e o nós;
  • Traços, sons, cores e formas;
  • Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações;
  • Escuta, fala, pensamento e imaginação.

E é sobre este último que vamos pensar um pouco mais neste texto.

Considerando o trabalho com crianças pequenas e bem pequenas[2], as habilidades que envolvem este campo de experiência estão bastante ligadas ao mundo da leitura. Vamos ver alguns exemplos:

Todavia, para estimular as crianças a desenvolver estas habilidades, é preciso fazer da sala de aula um ambiente leitor e proporcionar às crianças diversas experiências que possam levá-las a este mundo e que irão favorecer o desenvolvimento da fala, da escuta, do pensamento e da imaginação. Para isso, diversos textos e estratégias podem ser utilizados, mas vou trazer aqui uma experiência que tive como professora desta faixa etária e que nos trouxe ótimos resultados com os alunos.

Para início de conversa, partimos do livro A colcha de retalhos[1], no qual o garoto Felipe, visita a sua vó nos finais de semana e vai ouvindo suas histórias que, após a avó iniciar a costura de uma colcha de retalhos, passam a ser narradas por meio das memórias que cada retalho trazia. Depois de sensibilizá-los com a leitura, propusemos aos pais que pudessem fazer parte destas rodas. Assim, cada dia um deles vinha à sala de aula e lia uma história de sua escolha para as crianças, da mesma maneira que a vó do Felipe fazia no texto. Essa participação sempre era muito rica, pois os pais se sentem valorizados e as crianças felizes por ter essa possibilidade de ver as famílias participando do seu cotidiano. Ao final, cada família enviou retalhos que tinham em casa e uma das avós costurou uma colcha de retalho para a turma, que passou a ser nosso “cantinho” da leitura.

Nossa leitura diária, passou a ser realizada em cima desta colcha, que trazia muitas memórias deste trabalho realizado a partir do livro. Você pode usar estas ideias para estruturar uma sequência didática em sua sala de aula. Estas atividades propiciam o desenvolvimento da fala, da escuta, do pensamento e da imaginação, favorecendo a ampliação dos saberes relacionados a este campo de experiência.

Desenvolver as habilidades propostas nos campos de experiência da Educação Infantil requer que o professor também desenvolva sua criatividade e imaginação, pensando em estratégias que coloquem os alunos no centro do processo de aprendizagem e que deixem de ser meros aprendizes. Ou que, por outro lado, estejam tão focados em atividades desenvolvidas no papel, que deixem de experienciar diferentes propostas que irão fortalecer o seu desenvolvimento emocional, social e cognitivo, como também propõe a nova BNCC e que sabemos ser essencial nesta faixa etária. Não há melhor maneira de desenvolver a fala e a escuta, do que falando e escutando, por meio da participação em situações reais. Também não há como desenvolver o pensamento e a imaginação apenas copiando algo ou fazendo atividades mecânicas e que não favoreçam o desenvolvimento destas habilidades.

As crianças precisam, desde cedo, vivenciar o máximo de situações possíveis que fomentem ampliar seu repertório e se apropriar dos saberes que a escola deve propiciar a elas. Por isso, o papel do professor de Educação Infantil é tão importante na formação da criança considerando suas necessidades para o desenvolvimento pleno e o estabelecimento de uma base sólida para as habilidades cada vez mais complexas que virão nos anos seguintes.  Em muitos casos, este profissional é pouco valorizado, inclusive financeiramente, tendo menores salários e menor reconhecimento por parte das Secretarias de Educação ou, até mesmo, por parte dos professores de Ensino Fundamental, Médio e Ensino Superior.

É preciso deixarmos claro o grande valor desse profissional e enxergá-lo como um elemento fundamental para o desenvolvimento pleno da criança.  Só assim, poderemos almejar que todos possam dar o devido valor a este segmento da Educação Básica e, consequentemente, garantirmos uma educação de qualidade desde a base da formação de cada aluno.

 

[1] SILVA, C. C. e SILVA, N. R. A colcha de retalhos. São Paulo: Editora do Brasil, 2002.

[1] Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/wp-content/uploads/2018/02/bncc-20dez-site.pdf

[2] Termos utilizado na BNCC: crianças pequenas (4 a 5 anos e 11 meses) e crianças bem pequenas (1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses)

 

Referências bibliográficas

BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial curricular nacional para a educação infantil / Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental. — Brasília: MEC/SEF, 1998.

BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Básica. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC/SEF, 2017. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/wp-content/uploads/2018/02/bncc-20dez-site.pdf. Acesso em 21 de novembro de 2018.

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão. Conselho Nacional da Educação.

Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais da Educação Básica/ Ministério da Educação. Secretária de Educação Básica. Diretoria de Currículos e Educação Integral. – Brasília: MEC, SEB, DICEI, 2013. Disponível em

http://portal.mec.gov.br/docman/julho-2013-pdf/13677-diretrizes-educacao-basica-2013-pdf/file. Acesso em 22 de novembro de 2018.

SILVA, C. C. e SILVA, N. R. A colcha de retalhos. São Paulo: Editora do Brasil, 2002