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O caminho do educador no desenvolvimento moral da comunidade escolar rumo à excelência do ensino e da aprendizagem.

por Tabata Milula Estevam Kato

Já lhe adianto: não é o caminho mais curto. Para falar a verdade, nem o mais rápido. Nem sempre o mais recompensador. Nem o… Espere! Então para quê segui-lo?

Fazendo um compilado do que a maioria dos dicionários traz, o termo ‘moral’ vem do latim Morales, relativo aos costumes e faz parte de valores universais humanos; esta é aprendida e varia com a cultura, a educação, a tradição da sociedade em que o indivíduo está inserido e é ela quem orienta o comportamento humano. Para compreendermos a importância de seguir nessa trilha na construção da autonomia, temos que deixar nossas opiniões de lado, analisar e refletir a questão, está disposto?

Para começar nossa análise, gostaria de propor ao leitor a reflexão sobre quem é este educador ao qual o título se refere. Quem é ele? Gestor? Professor? Pai? Estudante? Será que este educador pode ser qualquer um desses personagens? Ser educador significa dar educação, criar, adestrar, cultivar, doar seu conhecimento e, segundo o dicionário, educar¹ é adquirir os dotes físicos, morais e intelectuais que dá a educação. Você se enxerga como educador?

Todos nós sabemos de nossas responsabilidades sociais com nós mesmos, quase que invisíveis de tão enraizadas – manter nossa higiene em dia, vestir calçados ao sair de casa, cumprimentar ao cruzar com um amigo, entre outros exemplos, que são de nossa exclusiva responsabilidade cumpri-los – mas, de vez em quando, nos esquecemos de nossas corresponsabilidades. Ora, aquilo que vemos, as nossas ações, ou a ausência delas, conforme aquilo que observamos, aquilo que falamos aos outros. É aí que começamos a pensar mais profundamente nessa trilha que lhe convido a caminhar.

Você já parou para pensar quantas pessoas já passaram pela sua vida? Direta e indiretamente? Você já se perguntou qual foi a importância de cada uma delas? Ou ainda de algumas delas? Acredite, eu já. Você pode supor que fiz isso por conta de minha profissão e formação nas áreas de educação, antropologia, sociologia, pedagogia etc. Mas não é só por isso. Posso dizer que sou uma agridoce educadora de profissão, com convicção e com evidências! Detenho uma disposição natural, desde muito jovem, e uma espécie de volição em ajudar as pessoas a compreender e praticar o melhor ao convívio, ao que é certo. Mas o que é certo mesmo? Certamente não sou eu a legitimadora das certezas, mas tenho como premissa que se meu comportamento não causa prejuízo moral ou físico a outrem, provavelmente este comportamento coloca-se no caminho certo para o convívio. Mas será? Às vezes me inquieto pensando… Quem legitima o que é certo? Quem legitima os legitimadores? Estudos? Pesquisas? Bem, vamos a alguns destes.

Estudos como os de Jean Piaget, Paulo Freire e Telma Vinha, apontam para a essência da moralidade, ou seja, como algo que deva se dar pela construção do conhecimento e respeito pelas regras já estabelecidas; deve vir de dentro, a partir do “ser para si” e para a libertação do sujeito. Se você está se perguntando: como se dá essa construção do conhecimento e esse respeito por regras? Que liberdade é esta? Estes estudos têm mostrado que existe uma relação direta entre a educação moral do educador e a de seu aluno. Lembrando que o educador que aqui tratamos, pode ser você, o gestor da escola, o aluno, o pai, a merendeira, o professor, um idoso da comunidade, em outras palavras, é um cidadão; alguém que compreende as normas ao seu redor. Neste sentido, se vê necessária a atuação de uma comunidade democrática,  integradora, com líderes na qual todos os envolvidos cooperem entre si com essa educação e com as metas estabelecidas. Alguns dirão: para isso há as escolas. Então vamos falar delas!

Dá para negar que a instituição escolar, há algum tempo, vem exercendo um papel heterônomo na educação de seus alunos e na formação dos docentes ao longo dos anos? Isso mesmo, podemos negar este perfil de escola, no qual a heteronomia prevalece? Este, um conceito que pode ser pouco conhecido, mas que, diz respeito à sujeição do indivíduo, refere-se à dependência e ao acatamento de regras, sem reflexão ou diálogo; seja por medo, amor ou respeito àqueles que as delegam.

Pessoas que se encontrem em um estágio moral heterônomo não favorecerão um ambiente escolar cooperativo, já que não haverá um trabalho para com a compreensão das normas, mas sim uma imposição ou obediência irreflexiva destas. Desta forma, não há uma reflexão sobre a conduta, há sim um movimento de obedecer por conta de uma sanção ou recompensa. Dessa forma um ambiente educacional onde ele próprio não abarque funcionários e estudantes em uma relação de cooperação e respeito mútuo, não terá êxito como um ambiente autônomo. Poderia, então, um ambiente ser considerado autônomo se favorecesse os sujeitos a serem livres para fazer o que quiserem? Depende. Se o que ele quisesse fosse pautado no respeito às normas já estabelecidas e na cooperação, sim, este ambiente levaria a autonomia. Mas, por outro lado, se este ambiente formasse indivíduos que não tivessem nenhum respeito ao que estava posto como lei ou se não houvesse tais leis, estaríamos pendendo para a anomia escolar, que se dá pela ausência de regras.

Você já se perguntou se não vivemos uma anomia de procedimentos em nosso movimento educador? Quais são as leis que elegemos para regerem nosso comportamento? Por exemplo, parece adequado prevenir conflitos, certo? Mas é natural que tratemos de algo com maior atenção e análise quando há um problema de fato, não é verdade? Podemos notar algo assim também na Educação. Pois quando não há um trabalho preventivo, corremos o risco de eleger nossas emoções, opiniões ou vivências como indicadores, quando com embasamento conceitual e reflexivo, feito com planejamento, com participação, podemos analisar outros prismas, sendo assim, mais assertivos. Assumindo que isso acontece, por que então baseamos nossas ações a partir de um senso comum, como algo que não tenha sido pensado antes?

Para que caminhemos no plano da moral, devemos nos questionar: como conseguir expor ideias ou ações sem constranger, violar ou ainda violentar o outro,seja este outro gestor, pai, aluno, professor etc? Como participar e colaborar com os acordos e normas existentes, respeitando minhas sensações e emoções, mas também a dos outros envolvidos? Lidar com a liberdade de escolha em meio a regras é algo que deve ser construído a partir do respeito que o sujeito tem por essas regras, para que se alcance a autonomia que tanto falamos. Deve ser aprendido, deve ser objeto de reflexão e diálogo. Deve-se imbuir valor à norma como princípio e tal princípio tem que estar atrelado à afetividade que o indivíduo dispende para este valor. Para isso, nós educadores, devemos promover um ambiente cuja afetividade seja foco e que essas questões afetivas venham por iniciativa do sujeito, de dentro para fora, pois se valendo dessa autodisciplina, esta, se transformará naquilo que esperamos: a autonomia legítima do ser.

Por último e não menos importante, devemos saber que essa caminhada é longa e deve ser percorrida em conjunto. Por outro lado, vale correr quando estiver em uma ladeira, vale diminuir o passo, cooperar e recolher as pedras do caminho, vale até tirar um cochilo em baixo de uma árvore que lhes ofereçam frutos para a continuidade genuína desta caminhada, só não vale pegar os atalhos. Desvios estes que nos tirariam da trilha da moral, aqueles que teríamos que ir sozinhos e nos fariam ter certeza de que deixamos algo para trás, naquele caminho pelo qual sabemos que deveríamos passar… Mas então, por que sairmos dele? Por que optamos em cegar nossa moral às vezes? Você já teve um ‘eclipse moral’? Uma criança que mente, dizendo não ser ela quem quebrou o vaso para não apanhar do pai; ou um adulto que bate em um carro estacionado e vai embora sem deixar um bilhete; ou um jovem que cola na prova, pois é isso que ele acredita ser a regra, tirar boas notas. É esta a cultura que temos? É esta a convivência que queremos?

Nestes casos será que deveríamos optar por buscar por um alargamento da consciência com relação ao ‘querer’ moral? De forma a não se auto sabotar ou burlar as regras já estabelecidas para a convivência que queremos? Assumindo assim as consequências de nossas ações? Uma boa reflexão e análise de todo este cenário visto com um olhar colaborativo – onde o outro seja pauta em nossas decisões e possa decidir junto conosco – nos conduzirá à autonomia que precisamos como referência ao ambiente escolar. Vamos tentar?

Tabata Milula Estevam Kato é educadora não romântica, entusiasta da vida em sociedade e da educação libertadora. Atualmente favorece este cenário sendo formadora de Gestores de Escolas Públicas na EloS Educacional.