por Adriana Rieger

Quando pensamos nas competências socioemocionais, algumas questões se apresentam, como por exemplo, o que são essas competências, como fazer para desenvolvê-las, como podemos contribuir para o seu desenvolvimento no dia a dia da sala de aula?

Atualmente, um tema muito recorrente tem sido como desenvolver competências socioemocionais na escola. No entanto, a discussão sobre o desenvolvimento dessas competências, há muito tem sido um dos objetivos da educação, afinal não é de hoje que se fala em formação integral do sujeito e em uma escola que se preocupe com os sentimentos e emoções dos estudantes.

Vários estudos nacionais e internacionais sobre os impactos das competências socioemocionais na vida das pessoas trazem à tona a importância de seu desenvolvimento aliado ao trabalho pedagógico. Tais estudos têm revelado que trabalhar competências socioemocionais em sala de aula, em diversos contextos, desde a mais tenra idade, impacta no desenvolvimento de crianças e jovens tendo influências positivas nas conquistas e realizações ao longo da vida.

Mas afinal, o que são competências socioemocionais?

Em linhas gerais, competências socioemocionais se referem à capacidade de mobilizar, articular e colocar em prática conhecimentos, valores, atitudes e habilidades para se relacionar com os outros e consigo mesmo, assim como estabelecer e atingir objetivos, enfrentar situações adversas de maneira criativa e construtiva.

Os trabalhos sobre essas competências vêm do campo da Psicologia com pesquisas que se debruçaram sobre como descrever traços da personalidade humana. No início da década de 1930, Willian Mc Dougall (1871-1938), sugeriu analisar a personalidade a partir de cinco fatores independentes que, na época, foram denominados intelecto, caráter, temperamento, disposição e humor.

A partir da década de 1980, nasce o Big Five fruto de inúmeros estudos sobre a teoria dos Traços da Personalidade. O Big Five foi sintetizado em cinco principais eixos ou dimensões: abertura ao novo, autogestão, engajamento com os outros, amabilidade e resiliência emocional. Cada um desses eixos ou dimensões abarca diversos traços que podem se entrelaçar com competências cognitivas, como por exemplo, a criatividade e o pensamento crítico.

Há quem pense que as competências socioemocionais sejam novidade, é importante destacar questões relativas à interação, a curiosidade, a relação do eu com o mundo e com o outro, a disposição para alcançar objetivos, entre outras, há tempos foram postuladas nos estudos de Lev Vygostsky (1836-1934), Jean Piaget (1896-1980) e David Ausubel (1918-2008).

Foi a partir da década de 1990, com a formulação de conceitos que classificavam como inteligência a habilidade de reconhecer, entender, utilizar e regular emoções em situações cotidianas, que a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) incluiu em uma de suas declarações a necessidade de garantir o “desenvolvimento das habilidades sociais e emocionais” das crianças, o que impulsionou centenas de estudos nos campos da Educação, Psicologia e Neurociências que provaram a relação entre habilidades cognitivas e o bem-estar socioemocional.

Pouco mais tarde, em 2000, o Fórum Mundial sobre Educação da Unesco, criou os quatro pilares da educação para o século XXI, focando a questão do ser e do conviver como objetivos imprescindíveis da Educação.Há algum tempo, acreditava-se que o ensino de competências relacionadas à convivência era responsabilidade exclusiva das famílias e que a escola deveria ocupar-se apenas sobre o conhecimento acadêmico. Felizmente, hoje concebemos que o papel da escola também é o de formar cidadãos e para isso não bastam apenas as competências cognitivas.

Pesquisas apontam que quando colocamos habilidades socioemocionais no currículo, o desempenho acadêmico também melhora. Uma dessas pesquisas realizada pela OCDE e publicada em 2015, traz a análise do poder das competências socioemocionais. Verificou-se que adultos com essas competências mais desenvolvidas tendem a ser mais bem-sucedidos: eles têm mais chances de concluir o Ensino Superior, escapar do subemprego e receber um bom salário.

As habilidades socioemocionais são como um currículo oculto, invisível. Nós as usamos o tempo todo, mesmo sem perceber. Um trabalho pedagógico intencional para o desenvolvimento de competências socioemocionais pode desenvolver habilidades em quatro frentes: cognitiva, emocional, social e ética.

  • Social cooperar e colaborar, lidar com regras, trabalhar em equipe, comunicar-se com clareza e coerência, resolver conflitos, atuar em um ambiente de competição saudável.
  • Cognitiva resolver problemas, planejar, tomar decisões, estabelecer conclusões lógicas, investigar e compreender problemas, pensar de forma criativa, fortalecer a memória, classificar e seriar.
  • Emocional lidar com emoções, com o ganhar e o perder, aprender com o erro, desenvolver autoconfiança, autoavaliação, responsabilidade.
  • Ética respeitar, tolerar e viver a diferença, agir positivamente para o bem comum.
O contexto em que vivemos e o desenvolvimento de competências socioemocionais

Incluir as competências socioemocionais nos currículos e ensinar as crianças com intencionalidade desde a mais tenra idade nos permite aproveitar as janelas de oportunidade, que são períodos sensíveis no desenvolvimento do cérebro. Nesses períodos, a experiência é duradoura na construção das conexões neurais, porque as habilidades aprendidas podem alcançar sua potencialidade.

Segundo António Damásio, neurocientista mundialmente reconhecido, somos dotados de emoções (primárias e secundárias) e sentimentos. As emoções interferem em todas as esferas de nossa vida e influenciam todas as tomadas de decisões e escolhas.

As emoções são mais automáticas e dificilmente disfarçáveis – se você estiver triste, alegre, com raiva, medo ou nojo, deixará pistas sobre o que está sentindo.  Já com os sentimentos é diferente. Eles são influenciados pelo ambiente e intermediados pela cultura em que vivemos, e por isso, carregados de subjetividade.

Daí a importância de aprendermos a reconhecer, identificar e encontrar estratégias para lidar com nossas emoções e sentimentos no dia a dia.

Certamente você já desenvolve algumas práticas que contribuem com o desenvolvimento das competências socioemocionais de seus alunos. Que tal nos escrever para compartilhar?

 


Referências:

FÓRUM INTERNACIONAL DE POLÍTICAS PÚBLICAS “Educar para as competências do século 21”, 2014, São Paulo. Comunicado de Imprensa. Disponível em: 135 http://www.educacaosec21.org.br/foruminternacional2014/wpcontent/uploads/2014/01/comunicado-de-imprensa-f%C3%B3rum.pdf

FÓZ, Adriana. Plasticidade Cerebral & Plasticidade Emocional. Psique, Ciência & Vida, ano VII, n. 93, 2013.

NORMAN, Donald. Design emocional. São Paulo: Rocco, 2008.