Por Sandhra Cabral

A quarentena provocada pela pandemia de coronavírus, que disseminou a Covid 19, gerou uma verdadeira revolução nos mais diversos segmentos da economia de nosso País, bem como nas escolas. Com a necessidade do distanciamento social, as instituições de ensino fecharam temporariamente as portas e, de uma hora para outra, docentes e estudantes se viram em casa, na frente do computador, lap top ou smartphone, com a missão de manterem suas rotinas dentro do processo de ensino e aprendizagem.

 

 

 

 

 

 

 Por conta das diferenças sociais, econômicas, de um estado para outro, de uma cidade para outra, entre as redes pública e privada, e das necessidades específicas de cada uma das etapas de ensino (Infantil, Fundamental I e II, Médio e Superior), as dificuldades foram pipocando e obrigando a todos a buscarem alternativas e novas soluções para cada desafio.

Passados alguns meses, os entraves permanecem, mas em muito se avançou…

Sim! Foi necessária a reinvenção da carreira do professor, já castigada no Brasil por vários fatores, entre eles, falta de estrutura física em muitas escolas deste País continental e de investimento assertivo em educação por parte do poder público nas três esferas. Muito se fez, mas as estratégias e táticas desenvolvidas até agora precisam ser aprimoradas, valorizadas e a atualização profissional continuada mantida e amplificada, com um novo olhar. Algo mudou!

Professores presenciais tiveram que se adaptar muito rapidamente ao mundo virtual: com a quarentena, passaram a fazer parte dos “instrumentos de trabalho” deles as câmeras, edição de imagens, de áudio, produção de infográficos, fotografias e estratégias para esse novo contexto, executáveis da casa de cada um deles diretamente para o lar de seus alunos.

As dúvidas, angústias e desafios foram e continuam dantescos. A adaptação às aulas online passa por todo tipo de barreira a ser ultrapassada: da falta de treinamento e conhecimento técnico para as aulas remotas, em muitos casos a começar pela falta de hábito ao uso de plataformas de ensino, aplicativos e utilização de tecnologia, à dificuldade em avaliar se o aluno está realmente aprendendo, ou mesmo dificuldade de aplicação de metodologias ativas em aulas online.

Tudo isso sem falar no sentimento de tristeza pela falta de contato com os estudantes, impacto emocional negativo desencadeado pelo isolamento, medo da contaminação por Covid-19, dificuldades para se adaptar ao home office com toda a família em casa, e por aí vai.

É fato que uma das exigências do século XXI para a docência é a formação permanente.  O mundo muda muito rápido com o avanço das TICs – Tecnologias da Informação e Comunicação, e, gostemos ou não, elas impactam as formas de aprendizagem de nossos estudantes, nativos digitais.

E uma pergunta pertinente seria: quais os meios mais práticos e eficientes para um educador se atualizar, em meio a tantas tarefas diárias? Principalmente de modo colaborativo e que possa diminuir o sentimento de distanciamento nesse movimento de pesquisa e estudos para um foco comum?

É possível responder a essa questão citando simpósios, seminários, congressos, ciclos de palestra, eventos culturais, cursos de pós-graduação, MBA, mestrado, doutorado, extensão, entre muitos outros. Em um mercado no qual a competição é cada vez mais acirrada, cursos de especialização estão se tornando quase obrigatórios nos currículos dos profissionais.

Mas existem outras formas extremamente eficientes para a realização não apenas da atualização profissional como para a formação continuada de docentes.

As CoPVs não são um fenômeno recente, mas ainda são pouco utilizadas, apesar dos benefícios que proporcionam: o estímulo à comunicação em grupos de profissionais para o compartilhamento de informações e experiências pode potencializar a atuação profissional em qualquer área, inclusive na educação.

Por proporcionarem atualização pontual, determinada por um objetivo comum dos integrantes, e face às mudanças constantes e velozes ocorridas nas demandas de trabalho provocadas pelo avanço da tecnologia, as Comunidades de Prática, especialmente as virtuais, (CoPVs), montadas em plataformas digitais online, atraem cada vez mais a atenção de grandes organizações ao redor do mundo, empresas e escolas.

Tais corporações entendem ser esse formato de aprendizagem coletiva uma excelente oportunidade para impulsionar o desempenho de seus colaboradores.

Bem, a comunicação entre professores (e entre coordenadores e gestores) em Comunidade de Prática Virtual propicia upgrade na qualificação profissional, facilita a formação continuada e a solução de problemas comuns. Também auxilia no desenvolvimento de currículos escolares e estimula o uso da tecnologia com foco na educação, gerando benefícios não apenas para os membros do grupo, mas também para os estudantes, escola e comunidade em geral.

Usar a CoPV para entender, detalhar e aplicar adequadamente a BNCC – Base Nacional Comum Curricular; usar a CoPV para desenvolver protocolos a fim de equacionar problemas relacionados a bulliyng; ou ainda lançar mão da CoPV para melhorar o currículo da escola; unir professores de várias disciplinas em torno de um projeto integrado, entre outras possibilidades. Cada estabelecimento de ensino tem suas necessidades particulares e específicas, que podem ser abraçadas pelas Comunidades de Prática Virtuais.

Em tempos de pandemia com a aulas online, as CoPVs podem ser extremamente úteis para equacionar dúvidas e amplificar novas soluções para a adequação do conteúdo ao universo virtual.

Segundo levantamento da TIC Educação de 2019, embora 100% dos professores utilizem a Internet em seu cotidiano, e 94% concordem com possíveis impactos positivos das tecnologias da informação e comunicação (TICs) em práticas pedagógicas, mais da metade deles (57%) garantem que não há incentivo para inclusão do uso da Internet no projeto político e pedagógico das escolas.

Para Goulart (2014), o desafio reside na necessidade de reestruturação do sistema pedagógico e de rede de ensino, principalmente nas escolas públicas, como dos conteúdos e currículos da formação e atualização de docentes.

Com o novo cenário, em que o uso das tecnologias não apenas para a produção de aula (geração de conteúdo para plataformas e aplicativos), mas para ministrar aulas online, os docentes necessariamente precisaram diminuir o déficit em conhecimento tecnológico para conseguir cumprir a missão de ensinar.

Passado o período do susto inicial, e sabendo que o retorno às aulas trará novidades, como o ensino híbrido, é chegada a hora de lançar mão das Comunidades de Prática Virtuais para trocar experiências, melhorar as práticas e, sobretudo, construir novos conhecimentos em rede.

Os docentes e gestores podem ter ganho imensurável com a adoção das CoPVs para sua qualificação profissional. E melhor: cada escola terá sua experiência, cada grupo de docentes e gestores desenvolverão novos formatos de ensino em acordo com suas realidades. Aplicar a BNCC, por meio de protocolos gerados em uma CoPV pode ser muito mais fácil do que aparentemente o é!

Curiosa com o impacto que as Comunidades de Prática provocam no aperfeiçoamento rápido de profissionais, desenvolvi dissertação e produto de mestrado profissional (2018), sob orientação do Prof. Dr. Elias E. Goulart, a partir desse tema, porém, com foco na educação.

Investiguei as práticas de comunicação utilizadas pelos professores que atuam nas três escolas de ensino médio parceiras do Grupo de Pesquisa ETICO (certificado pelo CNPq), do qual faço parte, a saber, EME Professora Alcina Dantas Feijão, em São Caetano do Sul; EE Professora Brisabella de Almeida Nobre, em São Paulo; e Colégio FSA – Fundação Santo André, em Santo André, para entender se há e quais são as formas de relacionamentos online entre os docentes para troca profissional.

Por meio de pesquisa realizada com aplicação presencial de questionário com 50 perguntas estruturadas e por posterior entrevista via email e via whatsApp, junto aos docentes das escolas citadas, investiguei a presença de Comunidades de Prática Virtuais, formais ou informais, a fim de analisar os processos comunicacionais envolvidos, e, encontrando-as, entender suas formas de utilização. Também busquei saber como é a utilização de mídias e redes sociais ou outras formas de relacionamento online pelos docentes das escolas pesquisadas para fins de interações profissionais.

Por meio dos resultados obtidos com a análise dos dados, detectei que há comunicação estabelecida entre os docentes pesquisados, tanto presencialmente – especialmente durante as reuniões de HTPC nas escolas –, como online, por meio de aplicativos e redes sociais virtuais; ou ainda, via plataformas específicas, como a Google Classroom. Constatei, ainda, que todos os professores estão presentes nas redes sociais e mídias digitais; e que a expressiva maioria – 90,9% – acredita ser possível utilizar as redes sociais virtuais para ensinar e educar.

Essas e inúmeras outras informações obtidas por meio dos resultados da minha pesquisa favorecem o desenvolvimento de Comunidades de Prática Virtuais, uma vez que é preciso que os membros das CoPVs tenham não apenas familiaridade com a rede, mas também conhecimento mínimo das possibilidades que o acesso à Internet pode proporcionar.

Em defesa da ampliação do conhecimento dos docentes por meio das CoPVs, na conclusão do trabalho de Mestrado Profissional em Inovação na Comunicação de Interesse Público, realizado na USCS – Universidade Municipal de São Caetano, finalizado em junho de 2018, destaco que boa parte dos professores se mostra favorável à atualização profissional por meio de Comunidades de Prática Virtual, e que 63,5% admitiram que compartilhar conhecimentos por meio de uma CoP pode ser bom para a ampliação dos horizontes profissionais e melhoria da atuação deles na produção de conteúdo e da qualidade das aulas.

Como a maioria dos professores, coordenadores e gestores de instituições de ensino não sabe quais características e procedimentos transforma uma simples rede de compartilhamento em uma CoPV, desenvolvi o “Curso de Criação, Desenvolvimento e Operação de Comunidades de Prática Virtuais”, que pode ser ministrado dentro das escolas ou a grupos de docentes interessados a qualquer tempo. O objetivo também foi transformar-me, a partir dessa expertise, mediadora de CoPVs.

O fato é que, mais do que capacitar docentes, as Comunidades de Prática Virtuais podem tornar-se uma prática comum entre os profissionais da educação. E o melhor é que, caso as CoPVs venham a se tornar de conhecimento de todos, elas podem se transformar em ferramenta para a formação continuada. As Comunidades de Prática Virtuais podem driblar até mesmo a falta de tempo alegada pelos professores, devido ao grande volume de trabalho e de horas/aula, para a ausência de atualização profissional, por não dependerem de locais fixos para as reuniões ou mesmo horários determinados.

Em um mundo no qual os novos saberes e as novas tecnologias se sobrepõem todos os dias, as CoPVs são de extrema valia!

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