por Marcos Zanutto

Ainda me lembro como se fosse hoje, o ano era 2012, mais precisamente dezembro. Foi quando recebi o convite para ser coordenador pedagógico em uma escola na rede municipal que trabalho até hoje.

Um misto de sentimentos inundou minha cabeça nesse momento: felicidade, em ter a oportunidade de desempenhar um novo papel na Educação; medo, confesso que senti muito medo de não ser bom o suficiente, de não conseguir desenvolver meu trabalho como desejavam; inseguro com as responsabilidades que me aguardavam e a dimensão que minhas decisões teriam; mas ao mesmo tempo muito ansioso, animado, pois ideias saltavam aos montes, um verdadeiro furor pedagógico.

Passei por diversas situações ao longo desses sete anos letivos em que fui coordenador pedagógico em três diferentes unidades escolares. E, se hoje, pudesse aconselhar um coordenador iniciante, ou até mesmo um que já esteja há um tempo nessa função, eu diria várias coisas, dentre elas:

 

Resiliência é uma palavra que tomamos da física para nossa vida: a capacidade de voltar ao estado ou forma original após ser submetido a alguma deformidade ou ação externa. E ser coordenador pedagógico é um exercício de resiliência. Somos testados, pressionados, em alguns momentos desafiados. Tanto por nossos pares da gestão, quanto pelo grupo docente ou pela comunidade escolar. Por isso, não se abata diante das dificuldades que encontrará, pois elas fazem parte de toda e qualquer rotina. Aprenda com elas, seja maleável às dificuldades. Um provérbio japonês diz: “o bambu que se curva é bem mais forte que o carvalho que resiste”.

 

Tenha consciência que tudo nesta vida é aprendizado. Que não nascemos sabendo de tudo”. Quantas vezes você não disse isso para uma criança em sala de aula? Agora faça isso consigo. Você não terá respostas para tudo. Assim como, no início de sua carreira docente, você cometeu equívocos, fez escolhas que precisaram ser ajustadas no decorrer do ano, tomou decisões que posteriormente precisou mudar. O mesmo acontecerá nessa função. Saiba que continuará sendo uma pessoa em evolução e em constante aprendizagem. Por isso, não se culpe pelos erros cometidos inicialmente, eles o ajudarão em seu amadurecimento e aprendizado profissional. Paulo Freire diz que o educador precisa sempre mudar sua atitude frente ao erro, passando a considerá-lo como uma “forma provisória de saber” (1985, p. 71)[1]. 

 

Eu fui uma pessoa de muita sorte. No ano que comecei como coordenador pedagógico passei por uma formação que me ajudou muito a compreender minha nova função, pois muitas habilidades que a função exige são diferentes das necessárias ao docente, observamos o processo educacional através de outra perspectiva. E nos damos conta disso, muitas vezes, já atuando. Por isso, procure estudar sobre essa nova função, há uma gama de autores, pesquisas, formações específicas para coordenação pedagógica. Invista em seu aprimoramento. Assim como somos referência para nossos alunos como professores, somos também referência para o corpo docente que coordenamos.

 

Lembre-se muito disso: lidamos com pessoas, pessoas adultas, pessoas adultas e professores. Lidamos em grande parte com docentes concursados, que assim como você, não sairão ou serão dispensados ao final do ano letivo. Conviveremos diariamente com estes profissionais, que assim como nós, passam pelas mais diversas situações em suas vidas pessoais. É muito importante criar laços de confiança e vínculo com eles. Vínculo é a palavra-chave para que as relações ocorram, é uma via de mão-dupla. Um docente que confia na coordenação participa das suas formações com empenho e dá abertura para novas aprendizagens mediadas por ele/ela. Mas assim como tudo, isto é um processo e leva um tempo. Houve um período em que essa função foi associada ao papel de fiscalizador, de vigia, de burocrata e distanciamento formativo. Com calma, empenho e tempo os laços se estreitam e se fortalecem. Mas, lembre-se também que criar laços profissionais, com foco na troca, não significando ser somente “amigo” do docente, isso pode ser um desdobramento, mas acima de tudo, é preciso deixar claro que é um vínculo pautado na troca entre educadores. Placco e Souza (2015, p. 23)[2] colocam alguns princípios norteadores para a aprendizagem do adulto, como é o caso dos professores, dentre eles, destacam que esta aprendizagem ocorre através da construção do grupo, através de confronto e aprofundamento de ideias, sendo permanente e dialético, tendo como ponto de partida a experiência e o conhecimento acumulado em sua prática. 

Organize sua agenda semanal. Separe momentos de formação pessoal, de direcionamento das ações da própria escola, de preparação de momentos formativos com os docentes. Uma rotina organizada o ajuda a priorizar o que de fato sua função exige e que os eventos do dia a dia não se sobreponham a isso. Sei que é difícil no início, mas com disciplina e determinação, isso se torna um hábito e o ajuda a desempenhar melhor seu papel. Uma dica é compartilhar essa sua organização com os demais membros da equipe gestora e docentes, pois assim, todos podem entender o papel e a importância da rotina.

 

Nada melhor que uma pessoa que vive a mesma função que você na mesma realidade para compreender melhor suas necessidades e anseios. Desenvolva uma rede colaborativa com colegas coordenadores da sua rede. Faça trocas de experiências, discuta possibilidades e direcionamentos. Lembro que quando iniciei minha carreira nesta função, havia duas outras coordenadoras que viviam o mesmo que eu. Fizemos muitas trocas de ideias, nos ajudávamos mutuamente, compartilhávamos anseios, frustrações e conquistas que conseguíamos ao longo do ano. E tal parceria me fortaleceu e ajudou a compreender que todas as minhas angústias não eram exclusivas, que todos estavam passando o mesmo que eu.

 

Eu fui premiado muitas vezes com a notícia que um docente que eu já havia sido coordenado por mim estava iniciando esta mesma jornada. Muitos me procuraram e me pediram dicas. Para todos, eu disse a mesma coisa: “Lembrem-se de todos os coordenadores que passaram em sua vida até esse momento. Inspirem-se em tudo aquilo que admiravam, que desempenhavam com muita capacidade. Também lembrem-se de situações e ações que os incomodavam, que discordavam e que diziam que fariam diferente ou direcionariam de outra forma, caso pudessem. Agora é a hora disso acontecer…”. Em geral, a maioria de nós passou pela figura do coordenador antes de assumirmos essa função. Tome todos como exemplo, retomem boas práticas e as não tão boas assim, aprimorem-nas, deixem-nas “à sua maneira”. Pois também, o que funcionava com outra pessoa, pode ser que de maneira idêntica, não funcione contigo, por isso, configurem-nas às suas necessidades e potencialidades.

E por fim, a maior dica que eu posso te dar: nunca perca o frio na barriga de todo início de momento formativo com seus professores. A mão suando, aguardando uma resposta de um docente após uma pergunta ao grupo todo. Enfim, não perca o brilho no olhar, a vontade de fazer o melhor para a Educação da sua escola.

Toda pessoa, independente da função que executa atualmente, mas que em algum momento já fez parte da coordenação pedagógica, mantém um respeito e admiração imenso por esses profissionais. Pois somente quem já esteve nesse lugar, sabe como é. Só quem viveu sabe…

 Tenho muito orgulho de ter vivido esses sete anos nessa função, pelas aprendizagens que tive, pela evolução profissional e pessoal, pelos laços de amizades que tracei com meus docentes – muitos se tornaram e são até hoje amigos pessoais.

Você, recém coordenador(a), passará por muitas situações nessa função, mas jamais esqueça da importância que tem para sua comunidade escolar. Seja resiliente, empático, procure formação, desenvolva habilidades interpessoais, trace uma rotina semanal, tenha uma rede colaborativa com colegas da rede, se lembre de antigos coordenadores, mantenha o brilho no olhar, mas acima de tudo, continue sendo feliz com sua profissão. Supere todos os obstáculos e continue na busca desta Educação equitativa e de qualidade a todos. Você é um elo importantíssimo deste ciclo.

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[1] FREIRE, Paulo; FAUNDEZ, Antonio. Por uma pedagogia da pergunta. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

 [2] PLACCO, Vera Maria Nigro de Souza; SOUZA, Vera Lucia Trevisan de. Aprendizagem do adulto professor.  São Paulo, Edições Loyola, 2015.