por Elaine Lindolfo

Em tempos em que os respiradores são equipamentos tão importantes para a sobrevivência dos humanos, como respira a educação infantil”?

Como estamos lidando com a crise da COVID-19 e das relações com nossos bebês, crianças e famílias?

Há várias perguntas que poderíamos nos fazer e dentre elas, certamente a maioria ficaria sem resposta.  O cerne talvez não esteja centrado nesta crise pandêmica que assola a nossa sociedade. Digo isso, em diálogo constante comigo mesma: quando olho um pouco para trás e vejo a escola cheia e seus espaços entremeados por crianças com seus sons, sonhos e desejos de descobrirem e construírem conhecimentos, experimentando sensações e buscando sentidos. Quantas vivências presenciamos nos momentos e espaços do cotidiano, evidenciando que a força motriz para a educação da infância são as brincadeiras e as interações. Pergunto-me novamente:

Como respira a educação infantil?  Penso nos ares que a nossa infância há tempos nos ventilava, indicando caminhos para um currículo dimensionado muito mais para as questões da vida e pouco menos por conhecimentos desconectados e sem sentidos…

Tivemos que abrir o portão da escola! Que ficou vazia…

Tivemos que fechar as portas de casa! Que ficou movimentada…

E de repente esses dois universos se encontram, para nos mantermos atentos à infância. Parece um grande desafio! Ares estavam sendo soprados para que nos ocupássemos com as relações, com a partilha de saberes e experiências, que constituem o arcabouço dessa educação para as humanidades.

Se as portas da escola se abriram e as de casa se fecharam, é chegado o momento de buscarmos janelas que nos promovam encontros e nos façam respirar outros ares. Que não estejam sufocados pelas normatizações excessivas, mas sim, aerados pelas interações e responsabilidade social que podemos ter uns com os outros.

Tenho uma turminha de 3 anos de idade e assim como em outros anos, buscamos desenvolver estratégias, para que as famílias participem do processo de ensino, em instâncias que estejam para além das reuniões e festejos escolares. Buscamos um processo de documentação pedagógica, que considere os conhecimentos das crianças e a cultura do território que fazem parte. Sempre tivemos um grupo de WhatsApp das famílias. Espaço para compartilharmos experiências, fotografias, músicas, ideias e experiências que começavam na escola e continuavam em casa. Nossas experiências destacam a busca das famílias por informações e o quanto elas podem se retroalimentarem, fazendo uma gestão quase que autônoma do grupo. Isso para nós é bastante revelador quanto ao potencial de gerenciamento e respeito às regras que previamente havíamos estabelecido. Também destacamos como case de sucesso as brincadeiras inventadas; as produções desenvolvidas e principalmente o encontro desta plataforma digital e mídia de comunicação, como um espaço para lidar com a saudade, para trocar informações e experiências, rever os amigos e as professoras, festejar aniversários e principalmente buscar caminhos. Tudo isso para não enfrentarmos sozinhos esse período, que é tão desafiador para nós que somos adultos, quanto para as crianças que estão formulando todos esses sentimentos e, assim como nós, também buscando saídas.

Eu defendo fortemente a parceria e o diálogo entre escola e família, pois acredito neste princípio e observo que pode ser uma ferramenta importante na implementação de um currículo, que tem por arranjo os campos de experiências. Nossas crianças continuam protagonizando e construindo conhecimento; nós, as professoras da turma, continuamos com o olhar atento e escuta cuidadosa, contando com a parceria já estabelecida com as famílias, para que solidariamente possamos viver e contar mais esta história. Sabemos dos nossos papéis, assim como sabemos que a escola não pode invadir o território da família.  O que propomos é uma janela que sempre esteve aberta, possibilitando uma corrente de ar que nos mantém vivos e confiantes de que poderemos construir um novo capítulo dessa história.

Que possamos abraçar a infância, transformando-a em um mundo de fantasias, de construções e experiências, oportunidades e desafios, capazes de fazer de um olhar, o ato comunicativo; da mão, o apoio para seguir e com suas próprias pernas fazer do mundo um lugar mais próximo.

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  Quer saber mais sobre o tema?

Confira nossa próxima live sobre Possibilidades para o trabalho com educação infantil em tempos de pandemia”.