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Educação Integral é um tema atual que começou a ser discutido nas últimas décadas, certo?

Errado. Antes de 1930, Anísio Teixeira já falava sobre uma educação emancipadora que elevasse o nível cultural da população ao conciliar a educação formal com aspectos físicos, artísticos, cívicos e intelectuais.

Você deve estar se perguntando “por que quase um século mais tarde o tema continua a ser discutido, mas ainda não é uma política efetiva na realidade da maioria das escolas brasileiras”?

Há muitas questões sobre as quais precisamos refletir para tentar encontrar essa resposta.

O primeiro ponto a esclarecer é que Educação Integral não é o mesmo que Educação em Tempo Integral. Certamente estar mais tempo na escola amplia as possibilidades de trabalho, mas para que o aluno não receba “mais do mesmo”, planejamento é essencial e planejar vai muito além de estabelecer quais atividades diferenciadas os alunos terão.

Quais atividades são mais adequadas para a realidade de cada escola? Essas atividades diferenciadas estão alinhadas com as atividades do núcleo comum do currículo? Proporcionam diversidade de estratégias, uma vez que alunos aprendem de múltiplas formas?

Estas são questões centrais que precisam ser discutidas com toda comunidade escolar a fim de não criar uma dicotomia – que ainda existe na maioria das escolas – entre as atividades ofertadas no Ensino Regular e as desenvolvidas no tempo que o aluno permanece a mais na escola, geralmente no contraturno.

Gestores, professores, monitores, equipe não docente e famílias precisam ser formados para refletir sobre a gestão do tempo e espaços utilizados em consonância com Projeto Político Pedagógico de cada unidade, ou seja, uma ótima oportunidade de envolver todos e ampliar o processo de democratização da escola.

Repensar o currículo implica questionar de que forma participar de uma roda de capoeira, tocar um instrumento e/ou trabalhar com o plantio, entre outras atividades, pode auxiliar cada aluno em seu desenvolvimento.

Infelizmente ainda é comum um caráter assistencialista de “tirar os alunos da rua” e, por isso, é frequente que nessas atividades sejam avaliadas apenas a participação ou não dos alunos; no entanto, pensar no desenvolvimento global do aluno, exige que, assim como em Língua Portuguesa, Matemática ou qualquer outra área do conhecimento, haja intencionalidade nas ações, ou seja, definir os objetivos de cada atividade, de que forma serão avaliados e quais estratégias serão utilizadas. Essa intencionalidade deve também perpassar pelos quatro pilares da educação: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a ser e aprender a conviver.

Estudiosos da área, como Vitor Paro e Jaqueline Moll, enfatizam que uma educação verdadeiramente integral precisa ir além dos muros da escola. É preciso não só trazer a comunidade para a escola e promover um diálogo com saberes não-formais e valorização da diversidade, como fazer um mapeamento da realidade e explorar as oportunidades que o entorno oferece.

Dados do último Censo revelam que estamos distantes de atingir quantitativamente a meta 6 do Plano Nacional de Educação que prevê a oferta de Educação em tempo integral em, no mínimo, 50% das escolas públicas, de forma a atender, pelo menos, 25% dos(as) alunos(as) da Educação Básica, pois dos 27.588.905 de alunos matriculados no Ensino Fundamental em 2016, apenas 2.508.754 pertenciam ao ensino em tempo integral, um retrocesso em relação a 2015 quando tínhamos cerca de 4.600.000.

E se antes de 1930, Anísio Teixeira já pensava em uma educação emancipadora, alguns anos depois, por volta de 1950, também já chamava atenção para o caráter prejudicial da descontinuidade das políticas públicas, algo que hoje ainda nos afeta e pode ajudar a responder a questão do início do texto “por que quase um século mais tarde o tema continua a ser discutido, mas ainda não é uma política efetiva na realidade da maioria das escolas brasileiras”?

É preciso esforço de todas as esferas governamentais para evitar retrocessos em relação a quantidade de alunos matriculados e, principalmente, promover um avanço qualitativo nos moldes existentes na maioria das escolas do país, para que a Educação Integral cumpra seu propósito de contribuir com o avanço da aprendizagem dos nossos alunos.

Por Janaína Efigenia Sousa