por Alex Moreira Roberto

Saber ler e escrever é fundamental, principalmente tendo em vista a complexidade dos diferentes letramentos necessários para interagir e viver em sociedade nos dias de hoje.

Nesse sentido o papel da escola é crucial para a diminuição das desigualdades existentes quando se trata da capacidade dos cidadãos de ler, integrar, interagir e transformar o mundo. Isso com certeza passa pela escola e a origem desses letramentos reside no processo de alfabetização das crianças e que ocorre, ou deveria ocorrer, logo no início de sua escolarização.

Garantir que os alunos estejam plenamente alfabetizados logo no início do Ensino Fundamental produz maior autonomia dos estudantes e possibilita que eles desenvolvam outras habilidades tão essenciais para a vida em ambientes letrados, como comparar informações, inferir o sentido de algo ou saber a finalidade de um texto.

Alguns professores relatam se sentir despreparados para alfabetizar os estudantes alegando não terem sido formados em sua graduação para esse fazer. Essa infelizmente é uma realidade em muitos cursos de graduação Brasil afora e esse acaba se tornando um dos principais desafios vividos em muitas das salas de aulas de escolas públicas do nosso país. Em suas primeiras práticas de alfabetização alguns desses professores se veem diante de inúmeras dúvidas como:

  • Por onde começar?
  • O que fazer com os estudantes com mais dificuldades? E com os mais avançados?
  • Que estratégias utilizar?

Embora alfabetizar todos os alunos até o final do 3° ano seja uma meta prevista no Plano Nacional de Educacional aprovado em 2014 e com validade de dez anos, é muito comum termos alunos não alfabetizados nos 4°s e 5°s anos do Ensino Fundamental ou até mesmo nas turmas de 6° ao 9°, o que é ainda mais desafiador.

A Base Nacional Comum Curricular reitera a importância de que a alfabetização seja foco nos dois primeiros anos do Ensino Fundamental:

 

 

 

 

 

Pensar em estratégias que possam apoiar professores no processo de alfabetização dos estudantes pode ser um dos possíveis caminhos a serem traçados e nesse texto compartilhamos algumas dessas práticas que podem te inspirar a pensar em como superar os desafios que possa estar vivendo na escola em que atua.

Utilize as etapas iniciais de construção da escrita dos estudantes

Os estudantes passam por algumas etapas durante o processo de construção da escrita. Conhecê-las e utilizá-las é fundamental para o professor uma vez que são um recurso valioso na construção de um plano de aula que apoie da melhor maneira possível as necessidades de cada grupo de estudantes. Nesse processo de alfabetização eles percorrem essas etapas, avançando mais rapidamente de uma para outra em alguns casos. Em ordem gradativa elencamos abaixo essas hipóteses iniciais do processo de construção da escrita:

  • Pré-silábico: quando usam símbolos, números ou as letras usadas na escrita não têm relação com a fala.
  • Silábico sem valor sonoro: quando representam cada sílaba da palavra com uma letra aleatória.
  • Silábico com valor sonoro: quando usam uma das letras da sílaba para representá-la.
  • Silábico-alfabético: quando alternam a representação silábica com uma ou mais letras da sílaba.
  • Alfabético: que escrevem convencionalmente, apesar de eventuais erros ortográficos.

(NOVA ESCOLA, s/d, s/p)[1]

Faça um diagnóstico da turma

O professor, logo no início do processo de alfabetização, precisa realizar uma sondagem sobre em qual etapa cada estudante se encontra para com base nesse diagnóstico planejar seu plano de alfabetização dos estudantes e ir realizando novas sondagens de escrita para acompanhar essa evolução.

Proponha atividades desafiadoras para os alunos de cada etapa da escrita

É importante garantir que os alunos tenham desafios que os impulsionem a avançar, para isso, uma mesma atividade pode ser oferecida para a turma, porém a depender da hipótese de escrita dos alunos a atividade pode ter níveis de domínio do sistema alfabético de maior ou menor exigência. Por exemplo, alunos silábico-alfabéticos podem realizar uma atividade de completar as letras de uma palavra sem ter um banco de letras disponível, já alunos silábicos sem valor sonoro podem ter esse tipo de apoio.

Realize trabalhos em grupos nos quais os próprios alunos apoiem uns aos outros

Um bom mapeamento dos alunos permite organizar atividade em grupo nas quais os alunos com aprendizagens próximas possam apoiar uns aos outros. Isso amplia o conhecimento daqueles que se encontram nas etapas mais iniciais da alfabetização e fortalece o conhecimento daqueles mais avançados, pois ao auxiliar os colegas precisam construir e fortalecer suas hipóteses.

Encoraje todos os estudantes a todo momento

Acreditar que pode aprender é fator crucial para que o aprendizado ocorra e é muito comum os estudantes com processo tardio de alfabetização demonstrarem baixa autoestima. Por ainda não estarem alfabetizados, por vezes, sentem-se envergonhados e em alguns casos verbalizam que 'não sabem escrever', 'são burros' e 'não conseguem aprender'. É muito importante o professor criar uma cultura e clima escolar que reconheça e valorize as diferenças de aprendizados existentes na classe, encorajando esses estudantes e dando visibilidade para outras habilidades que eles possam ter, como desenhar, pintar, contar, se relacionar, entre tantas outras. Em muitos casos ter o reconhecimento desses pontos fortes funciona como alavanca para a autoestima deles, os auxiliando a aumentar a crença de que também podem aprender a ler e escrever.

Tenha uma rotina de apoios individualizados

Nesse início do processo de construção da escrita é muito importante o professor conhecer e apoiar individualmente cada estudante. Como são muitos estudantes em uma turma, estabelecer uma rotina de horários nos quais esse apoio acontecerá ajuda e diminui a ansiedade dos estudantes e até do professor. Essa rotina precisa ser viável do ponto de vista do plano de trabalho do professor e frequente. Nesse momento de apoio individual o professor pode conversar com cada um, tirar dúvidas, orientar e fazer novas verificações de como estão avançando. Conforme os estudantes vão superando suas dificuldades os momentos de apoio individualizado podem ir se tornando mais espaçados, uma vez que vai vão aumentando sua autonomia. Isso também permite ao professor maior tempo para apoiar aqueles com mais dificuldades.

Desistir: nunca!

As estratégias propostas nesse texto não pretendem ser receitas, muito pelo contrário. A intenção é que possam servir de apoio no fortalecimento das práticas de alfabetização que já possam estar sendo empregadas em sala de aula. Sabemos que cada professor é um professor, cada sala de aula é uma sala e cada escola é uma única, mas também sabemos que as experiências de outros educadores podem nos ajudar. O importante é não desistir e saber que não estamos sós!

Dica de leitura

Quer saber mais sobre muitas dessas estratégias citadas no texto e como elas foram colocadas em prática por um professor em um caso real de alfabetização?

No e-book Ler e escrever, direito do aluno, dever de todos: um case de alfabetização você consegue ler na íntegra e em detalhes o relato dessa prática e se inspirar em como planejar boas estratégias para alfabetizar os alunos de sua sala ou de sua escola.

Boa leitura!

Ler e escrever, direito do estudante, dever de todos: um case de alfabetização

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