mulher mercado de trabalho

Por Ana Luzia da Silva Vieira

Quantas de nós, ao deitar-se, percebe que o corpo estava gritando por um descanso? E nesse momento, os pensamentos como agora vou meditar; vou pensar no meu dia e em como estou me sentindo; vou planejar o novo amanhecer ou vou ler meu livro iniciado há dias, duram segundos antes do adormecer?

Autores e estudiosos estão evidenciando a sobrecarga de trabalho em que as mulheres muitas vezes são submetidas, como por exemplo, o livro Mulheres não são chatas: mulheres estão exaustas[i] de Ruth Manus ou o texto A precarização tem rosto de mulher[ii] de Diana Assunção. De fato, concordamos que as mulheres estão cansadas de ter que dar conta de tudo e ao final, muitas de nós sermos representadas orgulhosamente como a figura da mulher guerreira, mesmo que tenhamos ido além dos nossos próprios limites e/ou que tivemos que renunciar a momentos planejados em nossas agendas voltados para o autocuidado e o próprio prazer. Cuidamos de tudo, porém muitas vezes esquecemos de cuidar de nós mesmas.

Com a entrada da mulher no mercado de trabalho, vimos muitas lutas se transformar em conquistas, entretanto o sistema patriarcal que ainda muitas famílias estão organizadas, mantém a mulher como responsável pelos afazeres domésticos, garantindo-a uma dupla jornada de trabalho. Essa jornada intensa de trabalho ainda pode se estender para uma tripla jornada, somando-se aos cuidados com os filhos e agravando-se ainda mais se for de responsabilidade exclusiva da mulher a manutenção financeira da família. Como diz Diana Assunção, está subentendido historicamente de que as mulheres levam mais jeito para o trabalho doméstico, isentando socialmente o homem desses afazeres, mantendo sob a responsabilidade da mulher esse “serviço invisibilizado e gratuito sem nenhum tipo de socialização.”

De acordo com o IBGE[iii] o trabalho doméstico continua nas mãos das mulheres, em sua maioria, pois as pesquisas revelam que as mulheres ocupadas no mercado de trabalho dedicam aos afazeres domésticos 18,5 horas semanais e homens 10,3 horas e, nessa mesma pesquisa, os dados indicam que homens em coabitação nas condições de responsáveis ou cônjuges realizam menos afazeres do que as mulheres nessas mesmas condições.

mulher mercado de trabalho

Mas o que fazer para ter equilíbrio entre o emprego e as atribuições da vida pessoal?

  • A primeira ação, com certeza, é a divisão de tarefas. Em relação a organização familiar, é necessária uma conversa franca com os integrantes da família para que haja uma divisão de responsabilidades pelas tarefas domésticas, de acordo com as horas trabalhadas em empregos, independente se o trabalho for no sistema home office ou presencial. Aqui vale lembrar que homens e mulheres têm a mesma responsabilidade, inclusive no cuidado com os filhos e no acompanhamento das tarefas da escola, não cabendo a mulher solicitar ajuda. É necessário corresponsabilização.
  • É importante gerir o tempo que se dedica ao trabalho e para a família, de forma equilibrada, situação muito desafiadora para os serviços realizados dentro de casa, especialmente em fases de pandemia que as crianças estão no mesmo ambiente. De qualquer forma, uma boa organização do trabalho, mantendo o foco e aproveitando cada momento poderá garantir que não seja estendido o tempo de dedicação ao serviço e que seja cumprido o momento de parada previsto. Se o trabalho for em casa, a simples tarefa de fechar o computador na hora certa ou desconectar-se do celular fora do horário de serviço, poderá garantir um pouco mais de tranquilidade, nesse sentido.
  • Ter mais tempo para cuidar-se deve ser um objetivo proposto diariamente. O importante aqui a ressaltar é que devemos empregar energias para não renunciar àquilo que nos faz bem. A pouco ouvi que a vida perfeita é feita de dias perfeitos e que a felicidade é vivida diariamente. O que deixa seu dia perfeito? Algumas sentem falta de ter tempo para relaxar, para ler, para criar, para passear, para namorar, para brincar com as crianças ou para não fazer nada. Pensando assim, se possível, reservar algum momento do dia para algumas dessas ações poderá fazer total diferença para seu bem estar diário. O que acham?
  • Ao chegar em casa, algumas ações, como um banho ou alguns minutos em silêncio poderá ajudá-la a revitalizar as energias e deixar para longe da família ou do lar as difíceis resoluções e as preocupações do trabalho.

Nossa luta continua…

No mundo corporativo, continuamos na luta pelo reconhecimento profissional, pela equiparação salarial e pelas mesmas oportunidades que os homens e, enquanto trabalhadoras pela garantia da valorização e respeito à mulher nos ambientes de trabalho.

Dentro das famílias, continuamos na luta para que os afazeres domésticos deixem de revelar a opressão de gênero, como se naturalmente fossem de nossa responsabilidade.

E vamos continuar lutando!

[i] https://observador.pt/opiniao/mulheres-nao-sao-chatas-mulheres-estao-exaustas/

[ii] https://revistageni.org/10/a-precarizacao-tem-rosto-de-mulher/

[iii] https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/24266-mulheres-dedicam-mais-horas-aos-afazeres-domesticos-e-cuidado-de-pessoas-mesmo-em-situacoes-ocupacionais-iguais-a-dos-homens