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Por Patricia Vieira Sarmento Silveira

Quando o assunto é formação de professores é comum ouvirmos comentários individualizados sobre a ação docente: os professores aqui na escola são resistentes, os professores estão acomodados, entre outros escólios. São questões como essas que permeiam as reflexões em torno das necessidades formativas dos educadores.

Observem que as frases lançam um olhar no sujeito, analisando sua prática de forma isolada, não considerando o contexto ou a ação do professor em relação ao grupo ao qual pertence. Todavia, no coletivo encontramos muitas possibilidades de mudanças quando compartilhamos momentos de aprendizagem e frustrações da profissão, dividindo saberes e dores. Devemos considerar que o professor, diante do momento formativo, é um adulto em processo de aprendizagem.

De acordo com Placco e Souza (2006, p. 24), a aprendizagem do adulto se dá, primordialmente, no grupo, no confronto e no aprofundamento de ideias, pela escolha individual e comprometida com o evento a ser conhecido. As autoras afirmam que as diferenças que surgem no grupo provocam novas perguntas, colocam em dúvida as certezas, fazendo com que todos cresçam.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O momento formativo é oportunidade de construção da cultura escolar desejada, fazendo com que os professores se vejam e se reconheçam como parte de um todo, e juntos transformem o trabalho em busca de uma escola voltada para a cidadania. O caminho começa com o olhar da coordenação e direção da escola. Mas é preciso ter como propósito a formação do grupo de professores. Como afirma Souza (2010, p. 29), só se constrói grupo pela realização de tarefas, com a busca de objetivos comuns.

A busca compartilhada de objetivos comuns precisa ser o ponto de partida e de chegada na organização nos momentos de formação coletiva realizado nas escolas, garantindo um clima de confiança, momentos de diálogo entre os pares e um projeto coletivo, levando em consideração a subjetividade, possibilitando que todos avancem.

Freire (1992) define três movimentos na constituição do grupo, que não são isolados. Estão ligados e se intercruzam, com avanços e recuos. Primeiramente, o grupo se caracteriza como conjunto de pessoas no mesmo espaço, para o mesmo objetivo: a busca dos integrantes do grupo é pela semelhança. No segundo movimento, as diferenças são percebidas e as divergências começam a surgir. Os integrantes do grupo as expressam. E no terceiro movimento as diferenças são vistas e aceitas, o exercício da crítica passa a ser constante, se reconhece e se aceita o outro. Cada um tem a sua individualidade, o que permite o desenvolvimento da autonomia dos integrantes. Essa é a melhor condição para um grupo de professores.

Nesse caminhar, o grupo se constitui durante o processo formativo, com os desafios previsíveis. Desde conciliar horários até garantir a rotina dos momentos formativos na escola. É preciso que o coordenador, em conjunto com o diretor, encontre momentos para estudar/planejar estratégias formativas que envolvam:

  • o diálogo entre os pares – utilizando estratégias em que possam dialogar sobre temas relativos ao seu fazer pedagógico;
  • trabalhos em conjunto – nos quais os professores possam pensar em ações coletivas que favoreçam essa integração entre eles, e também entre os alunos, favorecendo o desenvolvimento das aprendizagens, como por exemplo, um sarau onde alunos de diversas turmas possam compartilhar um momento de leitura e fruição coletivos;
  • o uso de narrativas individuais e do grupo – corresponsabilizar os professores pelos registros reflexivos dos encontros formativos, por exemplo, para cada encontro, um professor do grupo fica responsável pelo registro fazendo uma construção conjunta dessa história.
  • interlocução com diferentes linguagens – podem trazer filmes, quadros, músicas, que possam favorecer a integração, de acordo com a discussão a ser proposta para o grupo.

Com a frequência dos encontros, mediados por um olhar voltado para o projeto coletivo, o grupo vai se constituindo e se descobrindo enquanto grupo. Todo o processo formativo requer planejamento, ação formativa e acompanhamento. O desafio é como garantir que esses processos se consolidem na rotina da escola.

Deve-se priorizar um trabalho articulado entre coordenação e direção. Ao consolidar o processo formativo, promovendo a criação de um grupo de professores, haverá mudanças em conjunto, chegando à sala de aula, resultando na aprendizagem de todos os alunos.

Uma boa estratégia é aliar momentos formativos em grupo articulado ao uso dos registros dos professores. Segundo Fujikawa (2012, p.128), o registro pode ser importante recurso para a promoção da reflexão, desenvolvimento da autoria e partilha dos saberes. Nas palavras da autora:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os processos formativos de sua escola estão seguindo nessa direção? Deve-se romper com o trabalho solitário do professor diante da complexidade presente na escola, pois as melhorias serão sentidas quando, coletiva e colaborativamente, estiverem centrados em um mesmo objetivo. Fica aqui um convite para reflexão: os momentos coletivos na escola estão sendo organizados de modo a possibilitar o diálogo entre os pares? Pense com seu grupo sobre isso. Experimente, ouse, mude!

Para finalizar, convido a leitora e o leitor a ouvir o poema escrito pela Madalena Freire: “Eu não sou você, você não é eu”. Para isso, basta clicar no link abaixo.

Que tal usá-lo na próxima formação?

Referências Bibliográficas

FREIRE, M. Grupo: indivíduo, saber e parceria. São Paulo, Espaço Pedagógico, 1992.

FUJIKAWA, M. M. O coordenador pedagógico e a questão do registro. In: ALMEIDA, L. R.; PLACCO, V. M. N. S. (Orgs.). O coordenador pedagógico e as questões da contemporaneidade. São Paulo: Ed. Loyola, 2012.

PLACCO, V. M. N. S; SOUZA, V. L. T. (Orgs.). Aprendizagem do adulto professor. São Paulo: Ed. Loyola, 2006.

SOUZA, V. L. T. O coordenador pedagógico e a constituição do grupo de professores. In: ALMEIDA, L. R.; PLACCO, V. M. N. S. O coordenador pedagógico e o espaço de mudança. São Paulo: Ed. Loyola, 2010.