por Renata Helene Ferreira Campos

Muitos profissionais da Educação e famílias dos alunos estão preocupados com a “perda de conteúdos” escolares e em “como recuperarão” esse tempo de aula “perdido”. Ainda não sabemos até quando as escolas ficarão fechadas: um, dois, três meses? Ou será mais tempo?

O fato é que essa pandemia pegou a todos de surpresa e ninguém estava preparado para esse isolamento social. Agora temos nesse cenário:

 pais se desdobrando para conciliar trabalho (seja remoto ou fora de casa) com filhos sem aula e sem poder sair, e ainda dar conta de todas as demandas domésticas, das contas para pagar e as incertezas financeiras;

 escolas recebendo ligações e e-mails de famílias preocupadas com os conteúdos escolares e professores aprendendo a usar as tecnologias para gravar videoaulas, unindo esforços para planejar outras formas de promover o ensino e a aprendizagem, por meio de atividades enviadas para a casa. Temos ainda as escolas que estão organizando as entregas das merendas e cestas básicas para as famílias, preocupadas até mesmo em intercalar as entregas para que não haja aglomeração.

 crianças sem contato com outras pessoas além daquelas que moram junto, muitas vezes ociosas e   angustiadas, sem compreender muito bem o que está acontecendo com o mundo, ouvindo conversas preocupadas dos adultos e lembrando que no Brasil ainda temos a realidade da fome e da violência doméstica – portanto, esse nível de sofrimento mais profundo pode estar atingindo a muitos.

Se por um lado algumas escolas estão propondo atividades à distância, investindo nos instrumentos on-line para enviar leituras, vídeos e outras atividades (como há tempos acontece na EaD), por outro, muitos alunos não têm acesso ao computador ou à internet e, dentre os que tem, há ainda as famílias que não sabem como agir diante das propostas pedagógicas enviadas e, por sua vez, as crianças também não foram preparadas para receberem esse ensino em casa, sendo tudo muito novo. De maneira forçada, todos estão tendo que se adequar a essa nova realidade, rever seus conceitos, reinventar maneiras de viver de forma isolada fisicamente, mas sem perder as conexões sociais, à distância! Ainda assim, sabemos que os meios sociais mais vulneráveis sofrem as maiores consequências, sem infraestrutura e tecnologias que permitam essas conexões.

Há alguns dias li em um grupo na internet a preocupação de algumas mães sobre não saberem “dar aulas” para seus filhos, e uma delas reclamava sobre as “matérias” que seus filhos de 3 e 5 anos estariam perdendo. Ela contou que ao questionar a escola, recebeu a resposta de que os professores não iriam voltar nos “conteúdos” previstos para esse período. E eu me pergunto: Qual a concepção de Educação Infantil está por trás dessa ideia (tanto dos pais como da escola)? Ora, quais seriam as “matérias” para essa faixa etária? Se existem conteúdos que podem ser “pulados”, eles são importantes? Fica a pergunta: Qual é o conhecimento que interessa?

Vale pensarmos também o que as crianças podem estar aprendendo em casa, nesse período. Aprendendo a organizar suas coisas e ajudar nos afazeres da casa? Aprendendo uma receita culinária? Novas brincadeiras? Novas danças? Explorar alguma tecnologia? Ouvir músicas novas? Conversar com os amigos à distância? Comemorar seu aniversário em casa sem visitas? Estão aprendendo a esperar? A se acalmar? Aprendendo a colaborar? Que tantas outras experiências eles podem estar vivendo?

Considerando tudo isso que os alunos estão aprendendo e vivenciando nesse período, as escolas precisam se preparar para quando as aulas retornarem, atendendo ao novo contexto. Mas como será esse planejamento? Será que o melhor caminho é aproveitar logo o primeiro dia de aula para acelerar os conteúdos? Resumir os assuntos que deveriam ter sido trabalhados? Creio que precisamos ir com calma!

Afinal, nas turmas de alunos podem ter casos de crianças que perderam algum familiar próximo, crianças que ficaram doentes, crianças que passaram fome, que passaram medo, que passaram por traumas ou que simplesmente precisam falar sobre esse período. Os professores precisam ouvir esses relatos (pois as crianças têm e terão muito a dizer sobre o que está acontecendo), ajudar as crianças na construção dessas narrativas, agir com empatia, acolher cada demonstração dos diferentes sentimentos vividos, planejar momentos de diálogos, mas também de brincadeiras diversas, de movimentos corporais com exploração dos espaços escolares e interação entre as diferentes turmas. É preciso ter bom senso: nada de deixar as crianças fechadas em uma sala de aula, porque o isolamento social já as puniu muito com a clausura (assim como fez com os adultos). Vale a pena repensar o currículo escolar, para atender da melhor forma as necessidades dos alunos, e trazendo ainda mais humanidade aos assuntos.

Para que esse retorno ocorra de forma humanizada e organizada, as equipes escolares podem:

– Criar grupo de WhatsApp com os membros da equipe para discutir o planejamento escolar, compartilhar leituras e reflexões que ajudem a organizar a rotina do retorno das aulas;

– Fazer reuniões com os diversos segmentos da escola, usando aplicativos de videoconferências, para discutirem os projetos que podem ser realizados com as turmas no retorno das aulas e o papel de cada um da equipe no processo de acolhimento, que precisa considerar o bem-estar das crianças;

– Elaborar projetos que possibilitem a integração entre os alunos;

– Planejar uma reunião com as famílias logo no retorno das aulas, para ouvir o que elas passaram durante esse período e alinhar expectativas;

– Para as crianças da Educação Infantil, será necessário pensar em um novo período de adaptação, com tempos mais curtos nos primeiros dias, até que as crianças estejam novamente adaptadas à rotina escolar.

No retorno de nossas atividades (como profissionais da educação, como pais, enfim, como seres humanos), não seremos mais os mesmos, porque essa experiência vivida despertou sentimentos de diversas naturezas: para alguns foi uma vivência dolorida, para outros reflexiva ou de muitas aprendizagens e mudanças. Acredito que nenhuma experiência que vivemos são isentas de algum aprendizado, mesmo as mais doloridas, difíceis e tristes, nós SEMPRE aprendemos algo. Mesmo quando presenciamos atitudes erradas, podemos aprender “como não devemos fazer”. A aprendizagem nunca acaba! Depois do isolamento pelo COVID-19, talvez ainda não tenhamos os anticorpos, vacinas ou remédios, mas estaremos mais fortalecidos quanto ao modo de agir e viver, mais preparados, mais experientes!

Por fim, vale refletir: o que levaremos de bom dessa experiência (para nossa vida, para nossa sociedade, para nossas escolas)? A esperança é que esse período ruim tenha algum sentido positivo para nossa evolução!

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