Claudia Zuppini Dalcorso

Eu realmente não sei o que é ser discriminada pela cor da minha pele, pois sou branca, e em nossa sociedade pessoas brancas não precisam se preocupar com este tipo de preconceito, porém sou bem capaz de entender as condições de quem vive esse problema.

Temos vários tipos de discriminação: com os pobres, com os gordos, com os homossexuais, com os deficientes, aliás com todos que fogem do que acreditamos que seja o “padrão de ideal”. Às vezes, tento entender o porquê fazemos isso, já que a vida não é fácil para ninguém, porque complicamos mais ainda, procurando rótulos e tentando sobressair uns sobre os outros.

Uma coisa eu aprendi em todos os anos da minha experiência: está na hora de termos conversas difíceis. Isso mesmo, conversas sobre atitudes que não agradam a todos, mas que podem fazer a diferença na vida de muitas pessoas.

Não há espaço mais para intolerância, em lugar algum, mas vou falar do lugar que ocupo: o de educadora.

A escola como espaço que tem o dever de educar nossas crianças e jovens precisa acolhê-las em todas as suas diferenças e isso tem que sair do projeto político pedagógico e de discursos inflamados e ir para a ação. Como fazer isso?

Não importa a cor da sua pele, branca, negra, parda ou amarela… Comece refletindo o quanto a discriminação está dentro de você! Pondere sobre qual foi a última vez que você abriu espaço em sua aula ou em sua escola para falar sobre esse tema. O quanto as crianças e jovens negros ou pardos conseguem se identificar com as histórias que lhes são ensinadas no espaço escolar? As questões de cor e etnia estão permeando as aulas de sociologia, história, estatística, economia, geografia? Já contamos para nossos alunos o quanto de injustiça já foi cometida com as pessoas negras neste mundo e como podemos mudar esta história? Qual é o nível de consciência racial que a sua escola possui? Já demos voz para os alunos negros e pardos para falarem o quanto eles já foram ou são oprimidos?

Ainda não fez nada ou só um pouco? Não tem problema, temos tempo para começar, mas não demore, a nossa dívida é alta com esta parcela da população. 

Aqui vão algumas sugestões que aprendi com Mary Rice-Boothe, diretora do New York Leadership Academy, um centro de estudos para líderes escolares:

Peça para que seja explícito sobre como o preconceito em relação a sua cor e etnia afetou suas experiências e como isso afeta suas vidas hoje. Que privilégios ele tem ou lhe é negado por causa de sua cor?

Você, conscientemente, criou um ambiente que é aberto e apoia todas as etnias? Quais estruturas e sistemas estão afetando as habilidades de crianças negras e pardas para ter sucesso?

Você conversa regularmente com sua equipe sobre a diversidade de etnia e cor da pele em suas vidas e na vida de seus alunos? Os funcionários conversam sobre micro-agressões e entendem o impacto que elas têm nos alunos?

Como você está mudando as políticas e procedimentos da sua escola que oprimem sistematicamente seus alunos negros ou pardos?

Estas são ações e atitudes difíceis para serem tomadas, porém, nós, educadores, temos o dever de assumir posições que transformem o espaço escolar em um espaço de equidade.

Não importa onde você esteja em sua jornada para a consciência étnica, eu encorajo você a começar ou continuar o trabalho. Não há mais espaço para perdemos oportunidades de iniciar essas conversas.

Você não está sozinho existem vários exemplos de mulheres negras que superaram dificuldades e hoje são brilhantes educadoras, fortes, inteligentes, corajosas e que não tiveram e não têm medo de fazerem conversas difíceis.

Aqui vai minha admiração por algumas delas citando-as para que possam conhecê-las e, na figura delas, quero deixar minha homenagem para todos os educadores desse país, independente da sua cor ou etnia, mas que possuem a coragem de fazer o que é preciso para transformar suas realidades.

ANA VALERIA DANTAS

Superintendente de Avaliação – Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro

Licenciada em Filosofia pela UERJ, Ana Valeria tem especialização em Ética e Filosofia Política pela Universidade Cândido Mendes (RJ). Ensinou Filosofia na educação básica, foi coordenadora pedagógica e diretora escolar. Atuou como coordenadora e, posteriormente, diretora de Gestão e Desenvolvimento da Escola na SEEDUC RJ. E também como Superintende de Gestão e Subsecretária de Gestão de Ensino. Já coordenou o setor que desenvolve programas voltados a crianças vítima de violência, que acompanha alunos beneficiários dos programas Bolsa Família e Renda Melhor Jovem e fomento de ações para o resgaste de alunos que não frequentam as aulas.

 

JANAINA SOUSA

Coordenadora de Projetos da Elos Educacional

Mestre em Educação pela UFJF/MG, na linha de pesquisa sobre Gestão e Avaliação da Educação Pública, graduada em Pedagogia e em Jornalismo. Atuou como professora de Ensino Fundamental e Ed. Infantil, como coordenadora de Centro Público e como formadora de educadores.

 

MARISA DE SANTANA DA COSTA

Consultora da Fundação Lemann.

Mestre em Gestão e Avaliação da Educação Pública pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Marisa iniciou sua carreira na Educação em 1989, tendo atuado em funções diversas, desde professora do ensino fundamental até coordenadora pedagógica. Hoje, atua como Superintendente de Gestão na Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro, além de ser membro do Fórum de Gestão Escolar no Conselho Nacional de Secretários de Educação (CONSED).

MARY RICE-BOOTHE

Diretora de acesso e equidade da NTC Leadership Academy

Diretora de Acesso e Equidade da NYC Leadership Academy. Com mais de 15 anos de experiência em educação, Mary é professora, diretora e designer e diretora de programas de desenvolvimento de líderes de escolas. Ela é graduada pelo programa APP da Leadership Academy.

 

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