por Janaina Sousa

No texto “Vamos falar sobre a cor da nossa pele”, Claudia Zuppini iniciou uma conversa relevante sobre a importância de reconhecermos que o racismo existe e, de fato, esse é o primeiro passo para encararmos o problema de frente e pensar em formas de discuti-lo e eliminá-lo de nossas escolas.

Em seu texto, Claudia compartilhou que não sabe o que é ser discriminada pela cor de sua pele. Infelizmente (ou felizmente), preciso dizer que falo sob a ótica de quem já sofreu esse tipo de discriminação. Infelizmente, por constatar que a cor da pele ainda é motivo de julgamento em nossa sociedade, mas felizmente por ter encontrado pessoas em minha trajetória escolar e profissional que fizeram a diferença e me permitiram superar a dificuldade de ser mulher, pobre e negra no Brasil. A ação dessas pessoas me traz a certeza de que um olhar cuidadoso pode mudar vidas. Você já pensou nisso?

Fiz a maior parte do ensino fundamental no SESI 166 em Santo André, uma escola que não permitia qualquer tipo de diferenciação entre os alunos. Lembro-me bem de uma ocasião em que um aluno disse que não entraria na piscina depois de mim, porque eu era preta e a água ficaria suja. Ao saber do ocorrido, a diretora da escola nos chamou e o informou que ele não precisaria entrar na piscina depois de mim, pois estava suspenso das aulas de Educação Física naquele semestre. Ele se desculpou e implorou para não ter esse “castigo” e teve como resposta que se a ofensa foi em público, o pedido de desculpas também deveria ser, e assim foi feito.

Narro esse caso para dizer que depois desse e de outros casos resolvidos com a mesma imparcialidade (e que posso contar em outras oportunidades), senti-me em condições de igualdade e confiante para participar de forma ativa de todas as atividades, sendo representante de turma e presidente do grêmio estudantil, ou seja, o fato da escola não se isentar de ter um posicionamento sobre temas importantes e deixar isso claro para todos que fazem parte da comunidade escolar, pode ser determinante para o desenvolvimento de seus alunos.

Dia desses, tive a grata surpresa de assistir a uma propaganda de uma operadora de telefonia móvel intitulada “penteado”.  Nela, uma menina negra olha uma revista com uma modelo de cabelos bem lisos e demonstra um semblante triste ao tocar seus cabelos e ver que não apresentam o mesmo padrão; prende seus cabelos e vai para a escola. Com um olhar atento e motivador, seu pai começa, intencionalmente, apresentar com naturalidade negras famosas na música, no esporte e na moda que valorizam a textura afro de seu cabelo e o usam solto e volumoso. Dias depois, a menina aparece diante de seu pai com os cabelos soltos e pergunta “gostou?”. Se ainda não assistiu, não perca (clique aqui para assistir ao vídeo) e depois reflita: será que a escola tem o mesmo olhar atento,  e motivador do pai dessa propaganda?

Sabemos que a mídia, de forma indireta (e às vezes bem direta), determina os padrões de uma sociedade e. por isso, o fato de termos negros e negras sendo protagonistas de uma novela ou apresentando um programa de TV,  exerce forte influência na nossa representação social, mas a escola não pode e não deve esperar passivamente que essa influência adentre a instituição, é preciso haver intencionalidade  e planejamento para as mudanças necessárias.

Não se trata de “forçar” uma aceitação, mas, sim, de garantir a representatividade em suas propostas pedagógicas. Certa vez, quando era professora da educação infantil, notei uma criança negra brincando isolada das demais com as peças de encaixe. Ao perguntar por qual motivo não brincava com seus colegas, ela respondeu “estão brincando de casinha e não tem nenhuma boneca para ser a minha filha porque todas são brancas”. Ao relatar o fato para a diretora, a educadora providenciou imediatamente a compra de bonecas e bonecos negros para a escola. No entanto, será que essa criança não tivesse verbalizado o motivo do seu isolamento, nos daríamos conta da gravidade do problema?

Estamos num mês bastante propício a outra reflexão: por muitos anos a representação do negro nos livros se limitou à história da escravidão, culminando com a “comemoração” do 13 de maio, data da “libertação” dos escravos. Noto que temos avançado (embora muito lentamente), mas será que os livros didáticos e paradidáticos que fazem parte do acervo da escola trazem estórias e histórias dos povos africanos? Mostram como as tradições e costumes desses povos ajudaram a construir as nossas tradições e costumes? Mostram príncipes, princesas, reis e rainhas de pele escura? Há diversos livros menos superficiais sobre a África, livros que demonstram as riquezas e pluralidade de tradições desde à origem da humanidade. Esses livros podem, inclusive, ser baixados em PDF, como por exemplo o livro “Princesas Africanas” – clique aqui para acessar.

Outro ponto muito importante é como discutir o tema com as famílias, pois não é raro as crianças chegarem à escola com uma série de preconceitos em virtude do que já ouviram ou vivenciaram. Percebia alguns alunos negros se cobrando excessivamente “serem bons”, como uma forma de serem aceitos. Será que professores e gestores estão atentos a esses e outros detalhes que, às vezes, de forma tão sutil somatizam tantas dores?

Cada escola, de acordo com suas percepções e realidade pode pensar a melhor forma de avançar e permitir condições de igualdade entre seus alunos, mas o que não podemos mais é fechar os olhos e fingir que nada está acontecendo e nada precisa mudar. Reforçando o que a Claudia disse em seu texto, não importa o ponto onde estamos, precisamos caminhar.

E você? Já refletiu sobre isso? Em que ponto você está? O que você fará, no seu papel de educador, para diminuir as lacunas do preconceito em nossa sociedade?