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Regina Barbaro Matins Peralta

Quando comecei a escrever esse texto, iniciei pensando no título – Resolução de conflitos.  Por que Resolução? Por que sempre pensamos em resolver os conflitos? Por que sempre queremos tirá-los do nosso caminho?

Quando vamos falar no processo de aprendizagem dos nossos alunos, ouvimos as frases mais frequentes ditas por todos: Cada um tem seu ritmo de aprendizagem! Ou não existe sala de aula homogênea. Concordo plenamente com essas afirmações. Mas, no momento em que o foco das ações é o conflito, parece que tudo deve e precisa ser homogêneo, igual. Quer dizer que não pode haver diversidade quando estamos vivenciando a construção de relações sociais? Todos as crianças devem agir da mesma forma para que não tenhamos conflitos? Quantas vezes ouvimos de gestores escolares, ou mesmo de pais, que o grande problema é a indisciplina das crianças e dos jovens.

Acredito que o problema é a forma como nós, adultos, nos relacionamos com esse tema. É preciso destacar a diferença entre conflito e violência. A violência, de acordo com Marilene Chauí, no livro Ética e Violência, define que a violência é tudo o que age usando a força para ir contra a natureza de algum ser. Ela ameaça a integridade física, psíquica e moral. E sob esse aspecto, a violência deve e precisa ser discutida e amplamente coibida. Nesse sentido, cabe a nós educadores apresentarmos essas duas definições tão distintas aos nossos alunos. As relações que estabelecemos ao longo de nossas vidas, sempre terão, em algum momento, conflitos de interesses, mas jamais podemos nos relacionar através de qualquer forma de violência.

Já esses conflitos são momentos de desentendimentos de opiniões, de interesses contrários e fazem parte de toda e qualquer relação humana.

Portanto, não devemos resolver os conflitos, mas sim vivenciá-los e principalmente ensinar nossas crianças a lidar com a oportunidade de ter autoconhecimento e principalmente de vivenciar pensamentos que divergem do seu.

É sabido que na convivência entre pessoas, os conflitos interpessoais existem. Relacionamo-nos a todo o momento, trocando experiências e ideias, muitas vezes, divergentes.  Destaco que conflitos interpessoais são definidos por Licciardi (2013) como: interações em desequilíbrio. Esse desequilíbrio é percebido por comportamentos externos de oposição, ou por manifestações sutis da afetividade, tais como expressões, tom de voz, gestos, mesmo quando eles não são tão evidentes. Sob essa perspectiva, os conflitos são compreendidos como naturais e importantes para o desenvolvimento, já que evidenciam pistas para o educador do que as crianças precisam aprender.

Piaget afirma que os conflitos vivenciados pelo sujeito causam um desequilíbrio interno e a busca pela nova ordem permite que o indivíduo reflita sobre as maneiras de estabelecer reciprocidade e, portanto, operar sentimentos de maneira cooperativa e se desenvolver. É através da vivência desses conflitos que o processo de equilibração e autorregulação serão desencadeados.

Segundo Vinha, Tognetta e Ramos (2010), as discussões e os conflitos são positivos e necessários, pois permitem a troca de pontos de vista, que acontece devido à interação social. Sendo assim, como dito anteriormente, não há interação e relacionamento em que não ocorra o conflito. Quanto mais interação, mais situações de conflito ocorrerão. Essas interações podem ser construtivas, dependendo da forma como são encaradas e, portanto, não devem ser prevenidas. Alguns professores usam parte do tempo tentando evitar os conflitos ou, quando estes acontecem, tentam resolvê-los de forma breve. A fim de evitá-los, elaboram regras que são impostas e também adotam atitudes autoritárias.

Quando reconhecemos que os conflitos são oportunidades de aprendizagens, nós, enquanto educadores, passamos a usá-los para que os alunos busquem soluções e reconheçam pontos de vista diferentes dos seus. Essa experiência exige empenho e prática, não só por parte do educando, como também por parte do educador, já que este não centralizará mais a resolução do conflito, mas permite que os envolvidos reflitam sobre a situação. Vinha (2000, p. 351) diz: “Porém o fato de não solucionar por elas, não é sinônimo de largá-las à própria sorte”.

O papel do educador é ser um mediador desses conflitos. O mediador primeiramente deve reconhecer que o conflito pertence somente aos envolvidos e deve ajudar para que as partes exponham seus pontos de vista com clareza e que cada indivíduo tenha sua parte ouvida, ajudando-os a verbalizarem seus sentimentos, suas sensações frente ao fato ocorrido. Uma resolução de conflitos mais assertiva implicará no uso de uma linguagem descritiva, sem julgamentos de valor e com a descrição da situação. É preciso evitar qualquer tipo de inferência sobre a ação. Uma escuta ativa propicia a compreensão dos fatos por parte do mediador.

O mediador deve propiciar a prática da responsabilização, encorajar os envolvidos no conflito a buscarem soluções que contemplem os dois lados, sem tomar partido, evitando exposição, humilhação, agressão física e verbal. A mediação poderá ser feita de forma a intervir, explicitando o problema de tal forma que as partes possam se entender, promovendo uma interação, convidando os indivíduos relacionados com a situação para propor soluções e incentivando-os a refletirem sobre questões como: O que aconteceu? Por que você escolheu tomar essa atitude? Como você se sentiu? Como se sente agora? O que você sentiria se estivesse no lugar do outro? Qual outra forma você poderia ter agido? Quais são as formas que podemos resolver esse conflito?

Segundo Vinha (2010) essa mediação permite que, aos poucos, a criança se autoconheça, coordene suas ações, saiba levar em consideração os contrários, se descentralize, controlando seus impulsos e atitudes, buscando expressar seus sentimentos sem precisar usar da agressividade e que aprenda a pensar a priori, o que chamamos de antecipação. Sabemos, porém, que não é uma tarefa simples, muito menos para crianças que estão em fases iniciais de desenvolvimento e são ainda egocêntricas – tendo o próprio ponto de vista como algo central e prioritário

Entretanto, assim como outras disciplinas, é com a prática e exercícios que os indivíduos se tornam mais aptos a resolverem seus conflitos. A resolução de conflitos exige descentralização do próprio ponto de vista. Devemos incentivar as crianças a buscarem suas próprias soluções não lhes oferecendo uma resposta pronta, mas permitindo que elas conheçam meios para chegar a uma solução. Para Piaget (1967) a resolução de conflitos está subjacente às mudanças no desenvolvimento da criança.

Para finalizar, gostaria de deixar a reflexão sobre o quanto nós, educadores, devemos olhar para os conflitos como mais um momento de aprendizagem de nossas crianças e jovens. Cada vez que promovemos a discussão frente a um conflito, estamos propiciando para que nossas crianças e jovens tenham a oportunidade de formar valores e princípios em relação a construção de sua formação ética.

 

 

REFERÊNCIAS

CHAUÍ, M.  Ética e Violência. Teoria e Debate, nº 39, pp 32-44

LICCIARDI, L. M., VINHA, T. P.; Os conflitos interpessoais na infância e o ambiente escolar. GARMS, G.M.Z.; GUIMARÃES, S.A.R. (org.). In: Temas e dilemas pedagógicos da educação infantil: desafios e caminhos. Campinas, SP: Mercado de Letras, 2012.

PIAGET, Jean. A construção do real na criança. Rio de Janeiro: Zahar: Mec, 1975.

______. O juízo moral na criança. São Paulo: Summus, 1994.

TOGNETTA, Luciene; LEME, Maria Isabel; Vicentin, Vanessa; Quando os conflitos nos pertencem Editora Mercado das letras, 2013, pp.85-6.

VINHA T. O educador e a Moralidade Infantil: uma visão construtivista. São Paulo: Mercado das Letras, 2000.

_______.  A linguagem do educador. In: VINHA, T. P. O educador e a moralidade infantil: uma visão construtivista. São Paulo: Mercado de Letras, 2000. Fapesp. p. 263-329.